sábado, dezembro 02, 2006

O homem que joga pedras

Acorda. A primeira pedra vai no rádio-relógio estúpido que acaba de acordá-lo. A segunda, na lâmpada que insiste em iluminar. A terceira, no vidro da janela sem cortinas. É uma boa maneira dele começar bem o dia. Ele é o homem que joga pedras. Cada canto de cada cômodo da casa tinha um amontoado de pedras, tal qual maçãs podres caídas do pé. Quando estava na rua, levava uma bolsa cheia delas e as usava todas em todo percurso. Ao chegar no destino, o devido reabastecimento seria necessário. No local de trabalho, um escritório, mantinha uma caixa com os bólidos calcários ao lado da lixeira. Diariamente esta também era reabastecida.

Ele sai do quarto com os pés sem proteção. Pelo corredor, antes de chegar à cozinha, percebe a televisão chuviscando na sala. Mais uma pedrada: vidros televisivos no carpete. Afinal, a chuva lá fora já era o bastante. Murmura algo e segue. Na cozinha, uma pedrada certeira bem no copo que deixara com resto de café de ontem: vidros cafeinados ao chão. Despreocupado, mas com certa irritação, ele avança até o banheiro. Um passo adentro, junta uma pedra, maçã das grandes, e lança contra o espelho: vidros esfarelados sobre a pia. Para quem o visse agora, juntando outra pedra, pensaria rapidamente que a jogaria dentro do vaso sanitário ou contra o chuveiro. Mas não. Num giro rápido de corpo atira na janela na cozinha, exatamente ao extremo de onde está. Vidros e pedras não se entendem bem naquela casa.

O homem toma banho rápido. Retorna ao quarto, não sem antes destruir com três pedradas o quadro de Monet na parede de acesso à sala. - Que diabos esse quadro faz nessa parede!, diz. Ou melhor, grita. Foi o primeiro (mas não único) objeto não-vidro danificado naquele dia. Fora o hábito impulsivo, ele é um sujeito tranqüilo. Arruma-se sem pressa, calça sapatos de couro. Pega a mala de trabalho sobre a escrivaninha. No percurso até outro cômodo, chuta uma pedra perdida ao chão. A força do chute é desproporcional. A pedra alcança altura e faz o telefone de gôndola sair fora do gancho. O homem faz cara feia. Irrita-se pelo ato foi impensado. Nesse outro cômodo, ele pega a bolsa onde carrega as pedras. Ele abastece com muitas delas que ficam depositadas num enorme baú ao fundo. Feito esse trabalho indispensável, sai de casa sem olhar para trás, com o escrúpulo de quem deixa o lar na mais perfeita harmonia. Na garagem, dorme o cão. Despede-se do animal em três atos: uma pedrada na costela, uma entre os olhos e mais uma na perna esquerda.

Não há cartas na caixinha do correio. Bom motivo para uma nova pedrada antes de atravessar o portão. E, excesso dentro da bolsa, algumas pedras caem no chão. Nervoso com as perdas, o homem mostra-se trôpego ao andar na rua. Entra no ônibus.
– Bom dia, motorista. Desculpe quebrar o pára-brisa!
– Bom dia. Já é o terceiro essa semana.
– Preciso melhorar.
Os passageiros o ignoram. Pelo menos até ele descer. À saída, quando o ônibus já ganhava velocidade, ele não perdeu tempo em atirar pedras na traseira do veículo. Agora sim, as pessoas de dentro o xingam, sem constrangimentos.
É um dos primeiros a chegar no escritório. Logo à entrada, ainda na portaria, joga com violência uma grande pedra, maçã das boas, na sirene da chancela. O guarda não reclama, visto esse ser um ato tão comum como, de imediato, apedrejar o carro da secretária – sempre o primeiro a estar estacionado. Ao subir da escada deixa em cada degrau, ao canto direito, uma pedra de forma arredondada. Com a bolsa ainda bastante carregada, ele chega, enfim, na mesa de trabalho. Uma pedrada no monitor do colega do lado, que ainda não chegou, e duas pedradras no próprio computador. Está aí uma boa maneira de dizer “bom dia, pessoal”. Alguém, o novo estagiário, responde o cumprimento com voz escondida. O homem considera a atitude como sincera e uma pedrada no rosto, mesmo a longa distância, faz o garoto ter um pouco mais de respeito.

Quando o comendador geral chega, percebe tudo na normalidade cotidiana. Copiadora, telefone, fax, vidro fumê do arquivo-morto, mapas na parede, aquário sem peixes: tudo quebrado, rasgado, danificado, destruído. Apedrejado. Aliás, quase tudo, simplesmente por uma coisa: o sangue do estagiário pelos corredores.
– Deu de jogar pedras em pessoas agora?
– Estou incomodado. Tenho pedras no sapato.
– Dormiu no escuro novamente!
– A lâmpada está quebrada.
– Você perdeu a sensibilidade, foi isso.
– Uma nova fase, talvez.
– E como resolvemos esse sangue?
– Tenho mais pedras...

Sim, era uma nova fase. Uma descoberta. Vidros, madeiras e objetos não sangram. O homem sai cedo do trabalho. Vai conhecer pessoas. Conhece. É atitude de coragem. Pensa que será interessante acordar com uma mulher ao lado amanhã. Já planeja que o rádio-relógio será o alvo da segunda pedra.
– Querida, quer maçãs?

quarta-feira, novembro 15, 2006

Hebdomática

Caminho
Um lugar que leva à outro é uma saída.

Rua
Do centro à periferia, a única diferença são os semáforos.

Travessa
Beije-me e afaste-se.

Avenida
Voltaremos ainda ao pó, com esse asfalto a enlamear os pés?

Rodovia
As palavras nunca precisaram tanto dos ossos.

Vereda
A jornada de um dia já não leva tanto tempo assim.

Atalho
A multidão atrapalha o tropeço do bêbado.



[jb]

sexta-feira, outubro 13, 2006

Presença

É extraordinário que hoje não chova por aqui. Conforme lhe havia tido, tinha tudo para ocorrer um temporal. O vento de segunda e o frio de terça eram prenúncios de terrível mal tempo para hoje. É, realmente, extraordinário. Foi por precaução que pedi para você não vir. Tentei não ser estúpido. Tentei deixar evidente que me preocupo com você. Acredito que sua presença tenha alguma coisa a ver com isso. Com o fato (extraordinário, repito) de não haver chovido. A sua teimosia em descumprir acordos. A sua impaciência em não deixar nada para amanhã. Então, você veio. Me pegou de surpresa. Não esperava. Sim, é verdade, eu não esperava. Te conheço, sei das tuas implicâncias. A sua vinda muda tudo aqui. Muda tudo daqui para frente. Com esse tempo bom, você vai querer saber de tudo. Dois copos sobre a mesa. A geladeira nova. A cama desarrumada. O dicionário fora da estante. E todo esse dinheiro. Você nunca deveria saber desse dinheiro! Você ficou fora por muito tempo. Eu precisei me arranjar por aqui, novas companhias, outros afazeres. Espero que você me entenda. A verdade é que deu tudo errado. Não choveu hoje, você veio e eu estou despreparado. Lamento. Eu vou de alguma maneira resolver isso. Mas sua presença aqui, hoje, extraordinariamente hoje, muda tudo. Em todo caso, fique à vontade. Você conhece melhor essa casa do que eu. Preciso pensar um pouco. Quando acordei e vi a claridade, pude pressentir. – A lucidez vem acertar as contas. Ela veio. É ela aqui sentada na minha frente. Arquejada, sim. Toda sem nuvens, mas com todas as pedras nas mãos. Eu vou de alguma maneira resolver isso.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Ato

Atravessar a rua. Só isso. Trânsito frenético, motoristas cegos, carros, caminhões, ônibus, skate. Tudo em movimento. Ele parado e sem opção. Não podia voltar. O melhor mesmo era tentar. E estava. A impaciência a 110 km/h. Correra feito um louco pela Getúlio Vargas, passando pela Alfândega, JK e Liberdade. E agora, a das Nações. Os veículos-tijolos numa fila-muro. Parede que corre sem deixar brechas. Intransponível. O nervosismo vira angústia na alma, os pés tateiam qualquer passagem. Invadem a pista de rolamento. As mãos cansadas de carregar a vítima. No outro lado, o luminoso do hospital pisca forte um vermelho vivo.

domingo, setembro 24, 2006

Em paz

Desmaiara na morte – essa teia. Não sentia existência física. Ao chegar essas impressões, depois de um longo intervalo, perguntamos em brasa “não é o perfume uma melodia da aparência?”. Estas sombras falam figuras de paz extraordinária, como se houvesse, exaustas, à minha memória, coisas do coração. E depois, a simples existência recai na tentativa do julgamento dos juízes. Deitado sobre a mão, úmido por alguns instantes, ousava abrir bruscamente o negror da noite. A atmosfera permanecia abafada à razão. Todavia, se ele estivesse morto, tal suposição é incompatível com a realidade. Em que estados morriam as noites? Teria que esperar o próximo sacrifício. Não era possível fugir das outras prisões. Tinha pavimento de pedras e não luz. O sangue recobrou os sentidos num movimento rápido. Os braços, loucos, em todas as direções. Nada. Tinha medo de esbarrar no suor dos próprios pensamentos. Estendi em todas as direções os muros da minha sepultura, certo de que as imagens não atendem aquele que nunca desmaiou.

(a partir de exercício em oficina de criação literária)

sexta-feira, setembro 08, 2006

O nascimento de uma nação

Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos. Todos.

Tínhamos saído de um área desabitada, onde a desolação era a vizinha em qualquer sombra mal feita de galhos secos. Depois de dez quilômetros de caminhada, avistamos a construção à frente. Era Uma casa enorme que parecia estar deserta. E realmente estava. Entramos, eu e os outros quatro. Ao me deparar com o interior bolorento, lembrei do tempo em que a água ainda era abundante. Lembrei do meu irmão mais jovem. No trajeto, ao morrer meu avô, chamara meu pai e lhe dissera: Morreu teu pai. Morreremos todos nós, aos poucos. Meu irmão era um pessimista miserável. Cheguei até a esquecer-me dele. Admirava os outros três. Não eram da família. Eram amigos mais resistentes e esperançosos. Eu ainda olhava uma teia de aranha junto ao teto, e eles já estavam revirando a casa toda em busca de água e talvez algo de comer. Fiquei sozinho com meu irmão. Ele sentou-se numa cadeira esfarrapada. De súbito, saquei meu revólver e atirei fatalmente em sua testa suada. Morreu com cara de dúvida e com sede. Os outros comemoraram no outro lado: tinham achado um tanque de água e um veículo velho. Não comentaram nada sobre a minha atitude. Tinham a mesma vontade. Tive a certeza. Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Meu tempo sempre foi perdido; o dinheiro nunca foi achado.

Encontramos uma cidade à frente. Uma cidade deserta. Passei a ser a glória nacional. Uma nação de quatro pessoas. Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos. Todos.



[jb]

terça-feira, agosto 22, 2006

Escritos De Um Não-Lugar

Tudo em Translávia é rápido. A rua só é rua enquanto se caminha por ela. As árvores só são árvores enquanto há folhas verdes caindo ou balançando. As pessoas só são pessoas enquanto vivem: andando, pulando, escorregando, malhando, correndo, girando, agonizando. Não há memória, não há história, não há como voltar atrás. “Me movo, logo existo” é a única lei na Constituição. A inércia é o grande perigo de Translávia - um lugar feito unicamente de movimentos acelerados. É o país do gerúndio, da ação no tempo presente.

Alimásia é a capital. É uma cidade-turbina, onde a rotação das coisas está em velocidade máxima. Os carros, os ônibus, as multidões, os postes, as cartas, os sentimentos. Tudo existe num movimento frenético repetido a todo instante. Se algo parar, esse algo não existe. Por isso não há em Alimásia bancos de praças, camas ou cadeiras. Não há tempo de descanso. Não há tempo para dormir. Dormir é morrer. Na capital ninguém morreu. Na capital as pessoas vão morrendo. E ninguém se lembra destes que vão morrendo.

A partir da capital, a velocidade da ação diminui. Existem cidades de rotação média, rotação mínima e de rotação quase-nula. Em Algarávia, um lugarejo que se encaixa nessa última categoria, está ocorrendo um movimento social. A bandeira do anti-frenesi são agitadas por habitantes absolutamente contrários a instantaneidade de Translávia. O governador que mora na capital soube rapidamente do agito, ou melhor, do anti-agito promovido pelos rebeldes. É que os manifestantes andam devagar, moluscamente devagar pelas ruas, quase parando, quase não existindo, numa quase não-ação, atrapalhando a aceleração constante do trânsito. Pode se dizer que é o movimento do não-movimento, encarado pelo governo como ameaça nacional. Tropas do Exército vieram até Algarávia. Soldados colocaram os rebeldes para correr. Pessoas pararam: houve mortes.

O líder do movimento fugiu célere para as montanhas de Benísia. Não sabe mais por que fez isso. Só sabe que, cansado, parou. E parando, morreu. É do alto dessas montanhas que se percebe uma visão impressionante de Translávia: enquanto tudo se move, uma camada espessa de poeira se acumula na encosta do céu. Ninguém ainda se deu conta, nem mesmo esse que morreu, mas quando não houver mais chão também não haverá mais o país. Além de correr, os habitantes de Translávia precisarão voar.

domingo, agosto 06, 2006

O que aconteceu com o cão?

— Foi veneno!
— Tem marca de tiro na perna!
— Que tiro o que idiota! Isso é uma mordida!

— Três idiotas. Ele está dormindo.
— Ah, sim, dormindo. Descansou, vestiu o paletó de madeira, já era, bye bye, atravessou a ponte. E de veneno, foi de veneno.
— Deve ter entrado em casa de alguém, tentou pegar alguma coisa. Teve o azar de ser a casa do caçador. Um só tiro e olha o que temos aqui...
— Nada disso. Sem chance. Tem muitos deles no bairro. Andou com outros vagabundos e acabou se complicando. Comprou briga. Levou a pior.

— Ele respira. Está ofegando. Observem os pêlos do nariz a se moverem. Observem. Ele dorme.
— Os olhos estão vermelhos. As articulações, roxas. É o tipo de veneno para matar ratos de celeiro.
— Não há dúvidas. Pode até ser que morreu há poucas horas. Morto está. O sangue, qual a explicação?
— Ele era valente. Concordo até que tenha brigado. Dorme, descansando.
— Veja a baba amarela na grama. Efeito do veneno.
— A bala atingiu o fígado, certamente.
— Nada disso. A mordida do agressor comprimiu todos os órgãos internos.
— Nenhum do três idiotas nunca babou enquanto dormia?
— Rand Up.
— Calibre doze.
— Caninos.
— Zzz.

Os donos da casa chegavam. Os quatro ficariam observando do sótão. Tentariam ser eficazes na próxima noite.


[jb]

domingo, julho 23, 2006

Gato

Desceu, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto dos pobres familiares que cobriam a boca com as mãos enquanto se comprimiam ao pé da escada. Os dedos estavam ao ponto de apertar o gatilho. A arma postada junto ao ouvido. Ele pediu que ninguém interferisse, senão iriam ver o que não queriam. Passou pelo cunhado e elogiou a camisa listrada. Passou pelo sobrinho e o convidou para jogar futebol no domingo. O menino abaixou a cabeça. Passou pela irmã e agradeceu as tortas de limão que esta fazia. Passou pela prima e apenas fez um aceno de cabeça. Mais dois passos e chegou até o pai. Frente a frente com o velho, afastou a arma do ouvido e a deixou estar deitada na palma da mão direita, como um garçom que segura na bandeja um copo de água oferecido ao cliente. O pai ficou imóvel, e num silêncio trêmulo, recusou o refresco. O filho consentiu, segurou firme a arma e apontou novamente ao ouvido. O choro de uma criança na sala quebrou o silêncio. Ele nem piscou. Caminhou em direção à porta, dando às costas para os outros. Os olhares alheios eram espinhos nos ombros. Atravessou o limiar. Fechou a porta com a mão que não segurava nada. Alguém gritou lá dentro. No andar de cima, Lúcia e o outro já não existiam, mas estavam vestidos. O gato lambia o pêlo no telhado de zinco.

segunda-feira, julho 10, 2006

Novo Mundo

Trêmula,
a flâmula,
anuncia terra à vista.

Frenética,
a carne,
suspira por um descanso.

Instável,
a nau,
ancora ligeira na praia.


Estupro, à mata virgem.
Estranho, esse homem sem roupas.
Estrago, à natureza impune.

Antes, uma reza ao Nosso Senhor:
Pela Coroa,
Pelas almas,
Pelos naufragados,
Pela rica terra que hoje descobrimos.

Desculpe-nos pela bagunça.
A gente arruma tudo depois.

[jb]

domingo, junho 25, 2006

Trinômio da Aridez Humana

A TERRA
Do pó que somos feitos, fazemos nossas casas.
Da casa que nos abriga, fingimos nossos medos.
Do medo que nos acusa, criamos camas de barro.

O HOMEM
A peste assola ao meio-dia. O sentinela desapercebe o inimigo. O pai busca no bolso alguns trocados para o pão. Não se pode aguardar tempos de paz enquanto não chove, enquanto existir horas e prazos, enquanto haver coisas a serem guardadas, enquanto persistir a urgência em sobreviver.

A LUTA
José foi iludido por uma miragem. José desapontou a mulher e os filhos. José é tido como desonesto na vizinhança. José não foi à igreja no domingo passado. José vai deixar a cidade. José não tem cachorro pra levar junto. José não é um homem. José é só um nome.

[jb]

terça-feira, junho 13, 2006

Retorno de K.

Um dia o retorno acontece. Quando os silêncios já não são mais necessários e todos os ressentimentos não são nada diante da urgência em dissimular a vida. Nada a perder depois de vinte anos sem ser reconhecida pelo simples fato de existir, de poder colocar o pés brancos numa sandália e caminhar na rua sem pó. Os olhos azuis, os cabelos loiros, o corpo esquálido mas sensual, o sorriso que deixa a gente sem graça, o vocabulário dos braços que insiste em dizer palavras novas. Nada disso é importante após os filhos crescerem e rejeitaram a salada de beterraba. Após os anos se converterem em pedras e convencerem os homens que o tempo não cabe numa ampulheta.

K. voltou. Terminou o contrato com os inquilinos. Habitará novamente a velha casa abandonada cinco anos atrás, quando era só ela e seus sonhos nesse mundo. Volta agora com marido e filhos e com uma solidão arranjada no caminho. Sim, acompanha-a uma solidão toda dela, uma solidão masculina e mais duas solidões que crescem à revelia das outras duas.

K. surpreendeu-se com a casa. Tudo estava tão organizado, firme e limpo como à época da partida. Paredes, cômodos, jardim, teto, janelas. Parece que a casa não sofrera nenhuma interferência do tempo e do descuido dos homens, ao contrário dela. K. ficou feliz pela casa. Era uma felicidade boa, uma quase-esperança.

Arrumou as bugigangas da mudança com certo ânimo. Sorriu para um dos filhos quando percebeu que os pratos, novos, não quebraram com as truculências da viagem. À noite, antes de dormir, beijou a boca sem gosto do marido, e virou os olhos para a parede. Estava cansada. Disposta a ouvir somente as coisas concretas.

Desde que casou, só acredita naquilo que pode tocar com as mãos.

sábado, junho 03, 2006

Liquidez Pós-Moderna

Duvido muito desse cinza homocinético na parede.
Duvido muito dessa parede pintada com cal.
Duvido muito desse teto perturbado pelo barulho insilente do ventilador.

Não creio que esteja só, embora exista apenas uma sombra aqui.
Não creio que os números do calendário sobre a mesa estejam certos de seus dias.
Não creio que os livros empilhados possam atingir o telhado até o fim de semana.

Desacreditei totalmente das bulas, dos contratos e do aviso do lado de fora da porta.
Desacreditei das epígrafes, dos consolos e das admoestações.
Desacreditei também das recompensas e faço as coisas pela exata essência de estar fazendo.

Suspeito.
Suspeito.
Suspeito.
Não existe água doce ou salgada:
Só existe água. Corrente.

[jb]

segunda-feira, maio 15, 2006

Notícias Anônimas
aconteceu mas não saiu no jornal


Veículo suja muro ao passar em poça d'água
Respingos atingiram também um hidrômetro, mas síndico do prédio não reclamou

A água de uma poça foi lançada contra o muro de um residencial ontem à noite, após um veículo tipo caçamba, placas AYZ-6589 de Massaranduba, ter passado pelo buraco, na rua Quinta da Forquilinha, em alta velocidade. O evento ocorreu após as fortes chuvas de ontem que alagaram diversos bairros. Cerca de um metro quadrado do muro ficou sujo com a lama, além dos respingos que atingiram o visor de um hidrômetro próximo. O síndico do prédio, em depoimento a esta editoria, não reclamou do ocorrido, pois uma pintura de aparência no muro e nas garagens já estava programada para a próxima semana pelo residencial.

Trilha de formigas é desfeita por roçadores
Ação atingirá também formigueiro próximo a casa dos Knüsty

Caminho de formigas utilizado há mais de dez anos foi destruído por roçadores em Amuzina. Trilha sobre terreno árido da cidade ligava o formigueiro até as dependências da casa da família Knüsty e movimentava diariamente cerca de sete mil formigas no carregamento contínuo de restos de comida, folhas secas e excedentes calcários. A ação dos roçadores objetiva a preparação do solo para o plantio, apesar da pouca fertilidade, e atingirá também o formigueiro, localizado a 350 metros de distância da casa. Ambientalistas temem que destruição possa interferir drasticamente na cadeia alimentar local, além de provocar grave desequilíbrio no ecossistema.
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segunda-feira, maio 01, 2006

Debilitada


Ela precisava de vitaminas. Pegou um bouquet de rosas e colocou no liquidificador. Juntou açúcar e bananas. Misturou tudo. Tomou. Saiu: satisfeita.

[jb]

Liquidação

Sou consumidor. Cliente, usuário, comprador. Odeio liquidações. Promoções. Brindes. Prazos. Leve dois, pague um. Tudo com cinqüenta por cento de desconto. Leve agora e só pague em dois mil e nove. Concorra a uma viagem para a Copa. O que você vai fazer com seu décimo-terceiro? Me desagrada a publicidade, os outdoors, placas, faixas, banners e vendedores. Me desagrada as alíquotas, os juros baixos, os financiamentos, os cheques pré-datados e as datas de vencimentos. Tudo isso é abjeto, enquanto eu só quero comprar. Quero gastar.

Não tenho cheques. Nem cartão. Não preciso economizar. Não preciso trabalhar. Eu só quero comprar e gastar. Gastar. Não quero descontos, nem brindes, nem parcelamentos. Pago à vista, com dinheiro vivo. Não há porque evitar. Eu tenho dinheiro, muito dinheiro. E quero gastar. Pagar juros, multas e correções. Ninguém entende isso. Não negocio. Pago.

Compro de tudo. Artesanato, flores, pneus, chinelos, livros, aviões, barbantes, brinquedos, prédios, frigideiras, linhas de pesca, cadarços. E de todos. Meninos de semáforo, ambulantes de calçada, feirantes de rua, atendentes de cinema, vendedores de colchões, funcionários da Levi´s, Pierre Cardin e Calvin Klein, representantes da Microsoft, distribuidores da Walmart, gerentes do HSBC, investidores da Nasdaq, traficantes da Rocinha, políticos de Brasília, diplomatas de Paris, protistutas da Tailândia e plagiadores americanos.

Compro e pago. Não devo nada. Se devo, cobre de mim, por favor. Quero pagar. Tenho dinheiro. Quero gastar. Não gosto de datas comerciais. Páscoa, Namorados, Natal, Dias das Mães. Eu compro o ano todo. Todos os dias são bons motivos para gastar. Não negocio. Não espero abaixar o preço. Pago. Liquido faturas. Coleciono notas fiscais, bolsas com estampa da lojas, etiquetas com grifes e instruções de lavagem. Não uso nem dou nada. Eu compro e pago. Não alugo nada. Nem filmes, carros, roupas, salas comerciais, apartamentos. Tenho dinheiro. Compro. E só.

O que você tem para vender? Eu compro. E pago. Não quero nada de graça. Tudo tem um preço. Eu pago todos os preços. Não faço doações. Eu quero sempre algo em troca. Eu compro. E pago. Não despediço meu dinheiro. Não negocio. Pago.

O que você tem para vender?

sábado, abril 22, 2006

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pneumoultramicroscópicosilicovulcanocaniótico
recomeçouvindoutroseresememórialgasirenesaposilêncioum
ansiedadelásticatravessadaoutrordináriotorrinolaringologist
amanhãlmoçespereminhausentestradantevendoutrasaúdese
mergulharemariresistireincidênciaserãoperadasemedicamen
tosalvoutrapariçãondesperarásentadorganizandosemediocrid
adexamespeciaisemprestareignorandoseusentimentosemais.

O próximo, por favor.



[jb]

domingo, abril 16, 2006

mortes

Morreu Cíntia.
Morreu Penélope.
Morreu Aldo.
Morreu Bola, o cachorro.

Todos morreram num mesmo dia. Todos renderam notícias nos jornais. E comentários nos corredores da escola. A tv veio registrar o fato inédito. A rádio veio colher depoimentos. O dia foi tumultuado.

Dennis voltou sozinho para casa. Sozinho de amigos, de alegrias e de consolo. Ainda não acreditava que seus melhores amigos se foram sob o telhado de um mesmo dia, sob a sombra de diferentes circunstâncias. – dez anos para fazer, um dia para perdê-los.

Encontrou a casa vazia. Todos estavam na capela chorando os mortos. Não tinha leite nem pão. Mas Dennis também estava sem fome e sem sede. Tomou água para sentir-se vivo, digno de alguma necessidade. Foi para a sala e sentou-se no sofá. Fechou os olhos. Chorou.

Os outros chegaram. Viram Dennis no sofá. Resolveram não incomodá-lo em sua dor. Lica foi preparar café. Todos estavam desde cedo praticamente sem comer. Caio foi reler o jornal na expectativa de que alguma coisa estivesse errada, ou que uma nova notícia já estivesse escrita sobre aquela. Com surpresa, olhando para Dennis, que dormia, se indignou mais ainda por perceber que realmente nada mudara.

O café ficou pronto. Dennis acordou sobressaltado. – ainda é hoje? – sim, o hoje é sempre o dia mais longo da vida, disse Caio da cozinha, quase gritando. – então minha dor tem esse nome: hoje. Lica interfere, fazendo o convite: - sossega Dennis, venha tomar café.

– desculpe, mas vou ter que sair.
– aonde você vai? devia descansar. amanhã também será um dia difícil.
– vou visitar meus ontens. há muita vida por lá. talvez faça novos amigos.

No dia seguinte, ninguém morreu. Os jornais circularam normalmente. Dennis ainda não voltou. O ontem é uma prisão: teia de aranha.
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domingo, abril 02, 2006

Quem somos antes do amanhecer III

Ninguém passa por mim. Obrigo as pessoas a darem a volta no quarteirão. A passarem de largo, a metros de distância. Temem que eu desabe sobre elas e se atrasem para o trabalho. O medo faz da gente uns velhos que desconfiam até mesmo do vento parado na calçada. Admiro a criança que invade canteiros, pula cercas e arrebenta barragens. Mas crianças estão livres para brincar somente à tarde. Eu ponho limites a essas ruas. Domino os semáforos, as placas, os estacionamentos, os bares, as varandas. Determino entradas e saídas. Alvarás para o mundo. Eu divido a cidade e suas rotinas, suas éticas, suas perversões. Veja como é fácil manipular as pessoas: nada além de cimento, areia, tijolos e musgo. E um pouco de água pra não dizer que não sou flexível.

Dividindo a manhã: muro. Fronteira entre o ontem desprezível e o acordar pela metade. Como se divide o tempo em minutos, segundos e respirações, desunidos somos em sentir, pensar e agir, embora cabeça, tronco e membros estejam ligados por nervuras encadernadas à carne. Abandonei na madrugada insalubre a boa vontade de viver a vida como se ela requeresse isso de mim. Como se fosse um dever seguir a luz que se alumia atrás de montanhas brilhantes, condenando as trevas deixadas (senão feitas) por minhas mãos ainda sem furos, as mesmas que agora estão no bolso, mas que geralmente se ocupam de quebrar lâmpadas ou pagar passagens de ônibus. A minha perna direita convenceu a esquerda para atravessarem a rua, juntas. Penso que é preciso olhar para os dois lados antes de fazer isso. Numa esquina liquefeita em desacordos, raramente existem ruas, no máximo, atalhos para desfiladeiros sem curvas. Guardo ainda essa prudência: mantenho os olhos abertos desde que nasci.

Parede. Cortina. Divisória. Alambrado. Cerca. Lamenta-se muito ter que partir. Deixar o descompromisso para trás. Deixar o sonho, a fuga e a felicidade. Deixar a loucura, os gritos, os passos incoerentes, os pulos sobre os arames. Há um dia a ser feito em horas. Uma hora repetida oito vezes. Talvez a chance de acinzentar-se ao meio-dia seja pequena, ou um aglomerado de fogos mate qualquer aceitação. Talvez um cão ladra saudando minha presença, mas logo se lembrará que não tem o direito de opinar. Já esqueci das vivências anteriores a esta data. Até lembro dos espinhos nos pés, mas agora não sinto dor nenhuma. Dizem que possuía segredos engavetados atrás de risos infantis, mas nessa época ainda não era vivo. Uma vida é assim: fósforo e circunstância, e nada além das 06h30min.

Somos divisão. Acordamos em pedaços sem sincronia. Árvores negam-me a sombra, enquanto somos esquartejados. Os assassinos estão livres e almoçam comigo. Um homem que vive de madrugadas carrega o machado roubado. Uns juntam-se em camas. Outros dividem cômodos e salários. Eu desmonto-me na noite, esmiuçando e ajuntando pedras para estancar uma hemorragia chamada aurora.

[jb]

domingo, março 19, 2006

Hebdomática

MARX
O sangue coagulará na boca dos predadores.

JOYCE
Um homem que anda na rua deve odiar calçadas.

SARTRE
O corpo não é nada se não puder ser liberdade.

ESOPO
A espada corta os dois lados da folha.

PESSOA
Descaminho é o trajeto do equilibrista até a outra ponta.

NIETZSCHE
Existem coisas na montanha que Moisés não trouxe.

SHAKESPEARE

O gato não desce da árvore e a criança fica sem brincar.

[jb]

quinta-feira, março 09, 2006

Quem somos antes do amanhecer II

Por que é preciso que tenhamos corpos? Não basta esta alma habitada em fumaça e que guia-se através de miragens noturnas? Não é o bastante ter que carregar pedras, azulejos e lápides durante o breve respirar? Decerto este casulo epidérmico não agüenta mais do que alguns murros ou um simples olhar afiado. Algumas pessoas até olham para o meu rosto e dizem haver nele algum brilho, um convite ao toque, ao afago ou ao beijo. É incrível como não percebem a rachadura transversal bem na face esquerda. É notável. Eu olho no espelho e este me mostra trincado. Mas não considero isso um problema a resolver. O peso, a altura e o jeito de andar dessas carnes sobrepostas numa carcaça nunca falarão do que vejo a partir dos intestinos. Se me percebessem ao avesso, me veriam melhor, mas ainda assim não veriam o corte no rosto nem sentiriam a falta de um pulmão aqui dentro.

Sendo névoa, neblina e nuvem, ignoro tripas, veias e artérias que me prendem ao chão. Me condenso e me disperso com um sopro. Me sublimo e me vaporizo. Ganho a instabilidade melíflua que o corpo me impede e me interrompe antes mesmo de dar um passo. Sou sublime: atravesso muros, paredes e jardins; invado os quartos dos que dormem e denuncio seus erros. Desligo a TV. Sou exaltado: prego a virtude (a minha) e revelo os vícios alheios. Não importa se os cães mordam minhas pernas ou se as pessoas me machuquem. Estou acima do corpo, dos músculos, da matéria. Sou um fantasma inebriado pela penumbra e não sinto nada além da proximidade da morte de todos. Sou um induto sem forma desnudando a manhã feita de limites, de infâncias e de zinco.

Depois que o primeiro ônibus sai às ruas, a alma se exaspera e o meu braço arranhado fica cada vez mais visível. Levo comigo assassinatos, adultérios, suicídios, mentiras, solidões, desafetos, súplicas, arrogâncias e inocências. Não sinto a relevância dessas rotinas. Mas meu corpo sente. Ele mostra aos que saem das casas o meu desacerto com o mundo. Sou desalinhado, sou uma curva perigosa, sou mendigo que esmola entendimento. Desdenho os líquidos derramados pelo corpo: sangue, lágrimas, suor, urina, pus, catarro, enfim, coisas de meus sistemas. Mas as pessoas se irritam com isso. Não gostam de lembrar que somos animais. Somos um instante formados à decomposição.

Sendo apenas um vapor (quem sabe talvez um orvalho) me desconsidero. Deixo o corpo à revelia do ar, à oxidação das peles e dos nervos. Enquanto os demais tomam banho e fazem o café matinal, eu simplesmente respiro. E corro. Somos pó. Poeira levantada durante a fuga.

[jb]

domingo, fevereiro 26, 2006

Hebdomática

SEG
Antes do poeta acordar o galo cantou o primeiro poema da aurora.

TER
Existir sem vida é coisa de rochas.

QUA
O troco do pão não paga a faculdade.

QUI
Formigas protestam que as migalhas são jogadas muito longe.

SEX
O sonho de toda criança é ver um arco-íris à noite.

SAB
Que sorriso é esse que mais parece a ferrugem das tuas preces

DOM
Guardas prendem um bandido que roubava o silêncio.

[jb]

domingo, fevereiro 19, 2006

Quem somos antes do amanhecer I

Durmo.
À espera do trem na estação. Atrasado. Impaciente. Sem medo.

Um uivo de lobo me jogou na poça de lama. Acordei da viagem. Não vi o trem. Ainda atrasado. Eu era o trem. Era atrasado. Tinha vagões rodas cargas passageiros ferrugens trilhos à frente. Respirei a própria fumaça que liberava do meu forno-pulmão-traquéia. Olhei com olhos de ferro os aços que rastejavam embaixo dos meus pés mecânicos. E segui numa direção sem curvas. E segui sobre pontes. E segui por penhascos. E segui os avisos. Embora quisesse seguir o olhar desalinhado do vento...

Não há semáforos em trilhos.

E trens são demônios que correm sem freios. Eu era um demônio sem freios. Acabei de esmagar um suicida. Pobre diabo. Eu apitei. Apitei. Apitei. E apitei. Pobre diabo atrasando a viagem. Corro porque tem gente esperando na outra estação. Atrasado. Pessoas olharam pra mim de cara feia. A minha é de metal mal lavado, mas não escondo a oxidação do tempo como aqueles. Penso sobre trilhos horários ramais vegetação a bolsa esquecida em casa com a escova de dentes. Não tenho dentes.

Sou uma fornalha.

Sou um carrossel que não gira. Sem cavalos nem crianças chorando. Apenas ursos no telefone celular. Penso em cinzas lenhas e carne humana. Inferno em trânsito. Do porto ao pórtico do mundo. Não voltarei. Adiante uma ponte esculhambada: trajeto interrompido pela escassez de cuidado. A negligência do ditador sentado numa cadeira roída. Abruptos gritos e lamúrias tardias. Mas trens andam para frente. E eu tinha a minha pressa. A alma na ferrovia. Segui. Bati na córnea do medo.

Amanheço.
À espera do trem na estação. Atrasado. Impaciente. Com asas.


[jb]

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Cobra-Cego

Arrasto a cadeira pelo taco encerado até a sala
com uma mão
Risco a parede imitando o caminho das lagartixas
com a outra


Meu pé direito
chuta o gato dormindo no canto abandonado
O esquerdo
pisa rápido sobre uma moeda perdida


não é possível distinguir a janela aberta
ou a porta fechada
com os olhos
ou a parede que descasca sua alma de isopor


Nem o ponto negro de uma mosca atrás do vidro
A poeira caindo sobre o sofá
A água jorrando desajeitadamente da pia
O tapete lambido de sangue

Com o corpo – guerreiro indivisível
rastejo até o teto alcançando a lâmpada

A luz é a única coisa que se vê no escuro
Mas não há aurora que resista à um pôr-do-sol

Sem sol


[jb]

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Infra-estrutura

Só vi ângulos retos. Nas ruas. A cidade virou um feixe de retas paralelas, incongruentes e péssimas. Não há mais curvas. Homens de amarelo retorceram avenidas, deixaram-nas sem mistérios, sem segredos, sem escondiduras, sem dobras. Estes homens, e outros ainda, estão sem tempo para arquitetar esquinas, fazer curvas e brincar de adivinhar o que se abstrai nas sinuosidades das vias. Miméticos, os amarelos escolheram a reta, a menor distância entre dois pontos, pois não sabem mais manusear astrolábios e sextantes. Perderam a atração pelas adjacências, pelos cantos, pelos becos, pelos contornos mais ousados. Mas continuam desorientados, não sabem onde querem chegar e estão sempre atrasados para compromissos inúteis. Uma cidade sem curvas é um deserto sem labirintos de areia nem miragens de sol. É uma infra-estrutura de descaminhos.

Retas são caminhos de cavalos. Os homens se adaptaram bem, mas os automóveis continuam a violentar os postes. A geometria do auto-engano tem conseqüências não-aritméticas. Cavalos estão longe de sofrê-las, o que não se pode dizer de seus semelhantes amarelos. A morte – um ângulo raso – faz morada em retas. Ela atravessa, mas é incerto o instante que vai cruzar a rua. Curvas, no entanto, são esconderijos. De cobras, de ventos e de nuvens. Curva perigosa é um pleonasmo. O perigo é a alma da curva. Aceitá-la é dar vida ao desconhecido, ao segredo, ao improvável, aquilo que está exatamente à frente, mas não se pode dar conta de sua excentricidade: o risco. O risco de cobras serem serpentes, de ventos serem tempestades, de nuvens serem meninas. Os amarelos da pós-modernidade odeiam o risco. São covardes, donos de um medo retilíneo. Gosto mais dos cavalos.

Curvas nunca foram retas. Nasceram como tais. Morrerão como tais. Exceto estas que agora estão sendo retorcidas e forjadas pelos amarelos. Morrerão? Sim, infelizmente. A nova geração de carros já está vindo sem direção (com retas não há a necessidade de guinadas), assim como crianças já nascem cegas. Não haverá mais placas de sinalização, nem semáforos. “Siga reto, sempre”. Enfim, um mundo perfeito para mulheres. Um tabuleiro onde se joga a mediocridade humana. Moro numa curva. Gosto da bifurcação que ela sugere. Esta não morrerá. Enquanto houver uma curva no mundo, haverá possibilidades, potências de coisas que poderão ser. Retas são monótonas. Curvas são trajetos de Fênix.


Não é o ângulo reto que me atrai,
Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual.
A curva que encontro nas montanhas do meu país,
No curso sinuoso dos seus rios,
Nas ondas do mar,
Nas nuvens do céu,
No corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo Universo.
O Universo curvo de Einstein.

Oscar Niemeyer
[jb]

domingo, janeiro 15, 2006

Minhas Casas No Mundo

Sou um peregrino sobre a terra. Sou andarilho. Sou um ar desmotivado pelo vento. Sou um retângulo descalço. Não tenho teto, casa, abrigo, moradia, habitação, residência, refúgio ou qualquer outro caramujo desse tipo. Vivo sob o orvalho das auroras, na proteção precária do Universo, com os míseros recursos que ainda brotam nesse deserto. É o que tenho, além do sonho de morar numa estação ferroviária.

Depois do útero, já estive em diversos outros recônditos. Num inverno rigoroso, nas Malvinas, vivi dentro de um pneu abandonado, atrás duma oficina de tratores. A experiência de oito semanas foi terrível, principalmente após a chegada dos mosquitos. Hoje me pareço com um ferradura ou uma curva da Rio-Santos. Mas era a melhor cobertura da época, e os vizinhos não incomodavam. No verão seguinte, me mudei para uma floresta tropical ao sul de Caracas. Fiz da folha de uma amoreira meu aconchego por mês e meio. Era uma superfície instável, mas permanente. Vi repetirem-se as estrelas todas as noites e os amanheceres sempre beijando as águas de um rio sem curvas ao horizonte. Terrível era o barulho das motoserras.

Cansa dormir sempre na mesma posição. Migrei para Moçambique. Invadi uma teia recém tecida por uma dessas aranhas caseiras e estúpidas. Não fiquei muito tempo. Tive problemas de mobilidade e o pé de girassol que me sustentava curvou-se à enxada que o arrancara. Havia também muitos urubus na área, o que me desagradava sobremodo. Estive num celeiro a 300 km da capital de Ohio. Para ser mais exato, fiquei alojado sobre uma carroça de feno estacionada dentro desse celeiro. Tive intrigas com morcegos e logo abandonei o lugar. São assim, continuadamente, minhas rotinas: chego num lugar, fico por certo tempo e depois me retiro, sem satisfações nem culpas. Já morei dentro de uma garrafa de Coca-Cola. Bula de remédio foi meu cobertor na Argélia. Fiquei trinta dias descansando de uma viagem à Normandia sobre um pára-raios na capital norte-americana. Gostei de uma estadia curta nos sinos das muitas capelas em Roma, apesar dos pombos impertinentes.

Depois de muitos caminhares e sobrevôos, atualmente estou numa casinha de correios na rua Caximira, 541, em Lisboa. Tem bastante cartas por aqui. Faz duas semanas e o dono ainda não veio pegá-las. Talvez esteja viajando ou, de fato, não more ninguém na casa em frente. Deve ser uma pessoa importante. Tem cartas do Brasil, da cidade de Joaçaba, em Santa Catarina, e de Timóteo, em Minas Gerais. Há uma revista de moda da Escandinávia e um grosso envelope pardo remetido de Moscou. Desconheço tais lugares e espero visitá-los algum dia. A casinha aqui é confortável, mas logo estarei seguindo outro rumo. Sou um nômade insatisfeito com qualquer paragem.

Outro dia dormi a beira de um trilho. Pensei em seguir até encontrar a estação. Quando percebi, à frente, a bifurcação em vários ramais, desisti. Não gosto de fazer escolhas. Não sou exigente. Suspeito não existirem mais trens. Suspeito não existirem mais estações. Sigo pela rodovia não pavimentada.
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