sexta-feira, outubro 13, 2006

Presença

É extraordinário que hoje não chova por aqui. Conforme lhe havia tido, tinha tudo para ocorrer um temporal. O vento de segunda e o frio de terça eram prenúncios de terrível mal tempo para hoje. É, realmente, extraordinário. Foi por precaução que pedi para você não vir. Tentei não ser estúpido. Tentei deixar evidente que me preocupo com você. Acredito que sua presença tenha alguma coisa a ver com isso. Com o fato (extraordinário, repito) de não haver chovido. A sua teimosia em descumprir acordos. A sua impaciência em não deixar nada para amanhã. Então, você veio. Me pegou de surpresa. Não esperava. Sim, é verdade, eu não esperava. Te conheço, sei das tuas implicâncias. A sua vinda muda tudo aqui. Muda tudo daqui para frente. Com esse tempo bom, você vai querer saber de tudo. Dois copos sobre a mesa. A geladeira nova. A cama desarrumada. O dicionário fora da estante. E todo esse dinheiro. Você nunca deveria saber desse dinheiro! Você ficou fora por muito tempo. Eu precisei me arranjar por aqui, novas companhias, outros afazeres. Espero que você me entenda. A verdade é que deu tudo errado. Não choveu hoje, você veio e eu estou despreparado. Lamento. Eu vou de alguma maneira resolver isso. Mas sua presença aqui, hoje, extraordinariamente hoje, muda tudo. Em todo caso, fique à vontade. Você conhece melhor essa casa do que eu. Preciso pensar um pouco. Quando acordei e vi a claridade, pude pressentir. – A lucidez vem acertar as contas. Ela veio. É ela aqui sentada na minha frente. Arquejada, sim. Toda sem nuvens, mas com todas as pedras nas mãos. Eu vou de alguma maneira resolver isso.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Ato

Atravessar a rua. Só isso. Trânsito frenético, motoristas cegos, carros, caminhões, ônibus, skate. Tudo em movimento. Ele parado e sem opção. Não podia voltar. O melhor mesmo era tentar. E estava. A impaciência a 110 km/h. Correra feito um louco pela Getúlio Vargas, passando pela Alfândega, JK e Liberdade. E agora, a das Nações. Os veículos-tijolos numa fila-muro. Parede que corre sem deixar brechas. Intransponível. O nervosismo vira angústia na alma, os pés tateiam qualquer passagem. Invadem a pista de rolamento. As mãos cansadas de carregar a vítima. No outro lado, o luminoso do hospital pisca forte um vermelho vivo.
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