sábado, janeiro 30, 2010

Poetas no Singular

Os caminhos da poesia fizeram uma nova encruzilhada onde se encontram os singulares poetas catarinas Antonio Carlos Floriano, Cristiano Moreira, Dennis Radünz, Rubens da Cunha, Raquel Stolf, Marco Vasques, Marcelo Steil, Valdemir Klamt, Ryana Gabech, Fernando José Karl e seus textos já sabidamente fodas. O convite é para você se achegar por lá, sentar-se à beira da estrada e entrar na conversa.

O ponto de parada é aqui: http://poetasnosingular.blogspot.com
ou aqui: http://www.poetasnosingular.com.br

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Litoral

Se ela fechar os olhos
Verá o revoar dos pássaros antes de sua caminhada clandestina na praia
Ouvirá o som do mar explodindo o sono da manhã domingueira
Sentirá a areia entre os dedos e os pés marcando na orla seu rastro feminino
Respirará o cheiro marinheiro do vento a encher de gaivotas seus pulmões
Lembrará do gosto de sol beliscando sua pele rosada e doce
Pensará nas segundas-feiras com um rochedo que grita pelo bater das ondas
E nas sextas-feiras como um oceano gentil pronto a receber os jangadeiros

Mas seus olhos abertos são quentes de fogo
Dois pés descalços sobre o asfalto fervente
Tochas vermelhas famintas pelas trevas
Brasas faiscantes cuspidas por trovões

Ela não dorme nem descansa: é incêndio sempre
Deixou a luz entrar nos olhos como se recebe um vendedor de espelhos no portão
Vive de imagens, reflexos, cortes, explosões e pimenta na comida
Não sabe mais o que é uma nuvem, uma palavra, um copo de água
O olhar é vigilante insone na agenda de horas marcadas

Se eu chegasse de repente e cobrisse teus olhos com as mãos
Adivinharia quem sou?
Lembraria de um perfume antigo?
Reconheceria meu toque desalinhado de criança insegura?
Sentiria saudades das sombras avessas sob a soleira de manhãs simples?
Ou queimaria meus dedos já castigados pelo sal?
Ou mutilaria minhas mãos nas quais tenho o mapa de tuas profundidades?
Ou se esquivaria a modo de quem foge de um selvagem ou de um turista perdido?

Não
Ela é sempre atenta: farol, faísca e furor
Sentiria de longe os respingos de minha sombra fácil

Ceguei meus olhos para não vê-la assim
Ao estender o lençol da escuridão a vejo como antes
Menina de riso
Mulher de alma
Vício de verão

Ela soube. Ela chorou minha cegueira.
Chorou sem fechar os olhos.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

O dia binário

Hoje é um dia sem meio termo. Hoje impera a exatidão da matemática. A frieza da razão. O abraço dos extremos. A morte dos atravessadores. Hoje o dia é sim ou não, sem talvez ou depende. Hoje o dia grita ou cala, explode ou encolhe, voa ou rasteja. Não tem meio termo. Hoje é um dia inédito que nunca mais será repetido. A vida hoje exige ser inteira. Não faz concessões. Não há opções. No abismo entre 0 e 1 repousa qualquer possibilidade de existir. Pule, atravesse, mergulhe. Ou pare e espere o apocalipse do infinito amanhã. Hoje é dia de decisão.

Hoje Bhaskara, Euclides, Newton, Pitágoras, Pascal, Talles de Mileto e outros comparsas se reúnem na tua mesa. Olham no teu olho. Bebem do teu café. E decidem teu futuro. Hoje eles te colocam num dilema. E o dilema é uma ponte. E o dilema é uma corda. E o dilema é uma atitude. E não admite ser um não-dilema. Hoje os números de gelo te forçam à vida. Te colocam numa encruzilhada de uma rua só. Não é sempre que se tem escolhas. Duas escolhas, para ser exato, neste dia. Duas pontas, duas saídas, dois lados. A porta ou a janela. Direita ou esquerda. Acima ou abaixo. Hoje reina os inteiros. Mataram as metades do comodismo. Hoje não tem equilíbrio. Hoje é dia radical.

Hoje o bispo engasga com maniqueísmos. Relembra o céu e o inferno. Crucifica a miséria e aplaude a riqueza. É tudo ou nada para você. Deus ou diabo na terra do sol. Ou dá ou desce. Para o bem ou para o mal. Sem misericórdias. Hoje é um dia sem perdão. Hoje jogam pedras nas prostitutas. Hoje ninguém lava as mãos. É dia de matar ou morrer. De comprar ou vender. De parar ou seguir. É um dia de pedra, de cruz e de espada. Dia de dois gumes. Tempo de fogo e purificação. O encontro do abutre com a andorinha, da hiena com o cordeiro, do lobo com o cão. Hoje é dia de confronto. De guerra particular. Um medo e uma coragem na mesma sala, no mesmo sofá, lado a lado. Hoje é dia da verdade. O beijo de língua. Ou o escarro no rosto.

O hoje estupra tuas desculpas. Desnuda tua indiferença de cortina florida. É dia que carrega nas mãos uma tenaz contra teu peito aberto. E marca na pele branca o desenho quente do medo e da tortura. Não há escape. O hoje é ordinário e metódico. Exige alma cartesiana. Concentração e cálculo. E paciência de prisioneiro. Hoje não tem plano B. É dia certeiro. Hoje são descobertas todas as armadilhas. Os muros caem, o véu se rasga, tudo é posto à prova. Não há caminho alternativo. Hoje, dia 01/01/10, é dia binário. Bomba-relógio digital. Conta o tempo até a próxima aurora. Ou até o próximo enterro. O hoje anseia ser decifrado. É dia egoísta, filho único do calendário. Ele não dá regalias. Apenas dois pães secos. Dois números solitários.

0 e 1, 1 e 0. Eis teu brinquedo. Teu Lego de duas peças. Tua faca e teu queijo. Teu quebra-cabeça macabro. Faça as combinações. Ache a senha, o código, a passagem secreta. Não se distraia. Siga as regras. Livre-se das emoções, enquanto os outros fazem as apostas. Cara ou coroa? E nenhum outro dia será tão exato quanto hoje.
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