Se ela fechar os olhos
Verá o revoar dos pássaros antes de sua caminhada clandestina na praia
Ouvirá o som do mar explodindo o sono da manhã domingueira
Sentirá a areia entre os dedos e os pés marcando na orla seu rastro feminino
Respirará o cheiro marinheiro do vento a encher de gaivotas seus pulmões
Lembrará do gosto de sol beliscando sua pele rosada e doce
Pensará nas segundas-feiras com um rochedo que grita pelo bater das ondas
E nas sextas-feiras como um oceano gentil pronto a receber os jangadeiros
Mas seus olhos abertos são quentes de fogo
Dois pés descalços sobre o asfalto fervente
Tochas vermelhas famintas pelas trevas
Brasas faiscantes cuspidas por trovões
Ela não dorme nem descansa: é incêndio sempre
Deixou a luz entrar nos olhos como se recebe um vendedor de espelhos no portão
Vive de imagens, reflexos, cortes, explosões e pimenta na comida
Não sabe mais o que é uma nuvem, uma palavra, um copo de água
O olhar é vigilante insone na agenda de horas marcadas
Se eu chegasse de repente e cobrisse teus olhos com as mãos
Adivinharia quem sou?
Lembraria de um perfume antigo?
Reconheceria meu toque desalinhado de criança insegura?
Sentiria saudades das sombras avessas sob a soleira de manhãs simples?
Ou queimaria meus dedos já castigados pelo sal?
Ou mutilaria minhas mãos nas quais tenho o mapa de tuas profundidades?
Ou se esquivaria a modo de quem foge de um selvagem ou de um turista perdido?
Não
Ela é sempre atenta: farol, faísca e furor
Sentiria de longe os respingos de minha sombra fácil
Ceguei meus olhos para não vê-la assim
Ao estender o lençol da escuridão a vejo como antes
Menina de riso
Mulher de alma
Vício de verão
Ela soube. Ela chorou minha cegueira.
Chorou sem fechar os olhos.
Sexta-feira, Janeiro 22, 2010
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