quarta-feira, março 31, 2010

Promessa

Mil olhos te veem
Mil pedras te ignoram
És humano fraco e sujo
És pobre e lento
És atropelo e vergonha

Mendigas a vida
Às vidas que passam presas às pressas
És mortal e vives
És vivente sem fôlego
Esperas a morte
- uma esmola que nem o diabo dá

Desesperas de tudo
Das crianças, dos velhos, dos cães até
És árvore infrutífera
És tronco de carne podre
És resto de desmatamento

Mil moedas não te levantarão
Mil preces não te salvarão
Verás ainda muitas tardes
Falarás mal da chuva e dos jovens
Serás testemunha do fim

No dia da sega dos olhos
As pedras clamarão
E tu, ainda fraco e sujo,
Não terás nem indiferença nem desprezo
Serás só, único, soberano

Ouça os muros, as calçadas, os postes
Olhe os telhados, as placas, o asfalto
Eis teu reino, eles serão teus súditos
És um escolhido, creia
Serás rei e ninguém te invejará

quarta-feira, março 17, 2010

Hebdomática

Cabeça
Este é o tempo das degolas.

Pescoço
Nunca uma girafa se enforcou.

Peito
Todos os ventos que já suportastes não te fazem balão.

Braço
Os fracos não vão à guerra porque precisam enterrar os mortos.

Mão
Se for pra jogar pedras, que ao menos acerte.

Joelho
“Orações feitas em pé não são atendidas. Favor não insistir.”

Calcanhar
Muitos acreditam nos precipícios só devido às flores.
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