Segunda-feira, Maio 31, 2010

Traços de uma manhã simples

O sol cortado
A janela cega
O telhado em suor
A grama em bocejo
A cozinha sem cheiro
O pássaro mudo
O parque chamando crianças para brincar

Na cama, dorme o velho
Na xícara, resto de café de ontem
Na parede, o mesmo calendário de gatos de 2008
Na geladeira, imãs prendem lembretes da semana passada
No armário, biscoitos doces amolecidos
No portão, o jornal do dia

A casa cheia de rugas se entardece
O dia branco e liso se amanhece

Não há quem note a grama
Ou o pássaro
Ou o parque
Ou o telhado
Ou o café
Ou os biscoitos
Ou o velho

Ninguém se lembra de manhãs
Ou rugas
Todos se lembram do meio-dia
É quando bate a fome
É quando o velho quer comer

1 comentários:

Jana G. disse...

Lindissimo....sei que é o comentario clichê,mas é o que consigo ler entrelinhas dos seus versos que tem toda musicalidade do abstrado,do concreto,do passado e do presente!
Mais uma vez,lindissimo!!!

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