quarta-feira, junho 30, 2010

Nicodemus

Quando você nascer de novo
E teus pés ancorarem na praia
E tua nau feita de cedros
E tua espada de pirata bêbado
E teu mapa velho rabiscado

Quando você nascer de novo
E as ondas silenciarem nas rochas
E os marujos remarem com força
E as bandeiras tremularem vivas
E teu tesouro dentro do baú

Quando você nascer de novo
E tua gripe voltar forte
E teus prisioneiros fugirem
E tua ordem cega e louca
E tua roupa de escrivão

Quando você nascer de novo
E tuas cartas apagadas
E todas as garrafas vazias
E os ventos latirem como cão
E teu amor à deriva

Quando você nascer de novo
E teus livros fáceis esquecidos
E as palavras boas roídas
E teus serviçais rebelarem
E tua fé envenenada

Quando você nascer de novo
E tua ilha de uma rua só
E teu alimento diário
E a morada à beira-mar
E o naufrágio da morte
E teu sorriso de Deus

segunda-feira, junho 21, 2010

Aragem

Sob um céu de nuvens fáceis
O dia respira com a garganta inflamada
As buzinas estão roucas
As pessoas pigarreiam murmúrios tortos
E as esquinas estão lá, seja dia útil ou feriado

A brisa é um vento de engenho gentil
Faz esquecer as tragédias por trás de seu colo de mãe
Quando o dia termina no último farol vermelho
Lá vem a hora do vampiro
E os resfriados da noite não respeitam nem crianças

A sombra dos prédios atravessa tudo que se move
O sangue só circula porque corre da penumbra fria
Enquanto os dentes mordiscam fumaças
O asfalto lamenta ser chão
E a cidade só é bonita olhando-se das montanhas
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