quinta-feira, dezembro 20, 2012

Alada


Tuas asas tem a cor da minha sombra
Me assombra o teu voo no escuro

Não me curo do meu medo de voar
Me escondo no opaco do casulo

Me anulo para tecer a tua seda
Vou de vereda ao teu emblema de mulher

Como quem quer um abismo como berço
Me entardeço para te amanhecer

Ser uma sombra na leveza dos teus fios
Desfiar a minha pele nos teus feixes de luz

Elucidar todos os mistérios de fogo
Num ímpeto de carvão virando brasa

O bater de tuas asas faz vento inflame
Tua cor borboleta minha noite
(e apaga meu nome)

quinta-feira, novembro 29, 2012

Quase dezembro


O sol mordisca a pele na tarde morna da primavera
O vento é fraco, mas basta uma nuvem para trazer o temporal
À sombra, estudantes buscam um abrigo invisível na espera pelo ônibus
Os carros, numa ligeireza incômoda, abafam os detalhes da conversa

Na parede da padaria, cartazes anunciam festas e promoções natalinas
Quando a noite chegar, pequenas luzinhas no letreiro farão lembrar do fim do ano
Parece que janeiro foi ontem mas, por uma mágica, ele vai se repetir amanhã
E no janeiro, o sol envenena, o vento rasga, a sombra vibra e os carros param

Enquanto o novembro ainda rasteja, atraindo passarinhos e chuva rápida
A alma desacelera suas ânsias e preocupações; aos poucos, se estende no varal
O corpo, com pouca roupa, se tropicaliza de segundas intenções; deseja (a)mar
Neste quase dezembro, o verão acena com rotas, roteiros e rituais a 23 dias de distância

(Se os maias estiverem certos, morreremos todos na primavera – quase verão
Será inútil a brisa da tarde, a espera pelo ônibus e a pressa dos motores
Os pedidos de Natal não serão atendidos
Ninguém verá o corpo em trajes mínimos
E o janeiro jamais se repetirá)

quinta-feira, outubro 25, 2012

Eu, sapiens


Enquanto eu acho
Um sapo coaxa

Eu, chão
Sapo, lagoa

Eu, erro
Sapo, na mosca

Eu, humpf
Sapo, croac

segunda-feira, outubro 15, 2012

Vendetta


De viés
vesgueia a voz
vertendo virgens voragens

Vivissecam verdades (vãs)
e vomitam vagões (vazios):
ob(viedades)

Um vilão
veleja nas veias
venerando vísceras, vermes, varizes

No vão do ventre
viaja
o vermelho, o vulto, as vertigens

Entre vitrines
(e vidros) vibram vergalhões
                 em veloz ferrugem

É quando a vista vê
vampiros e vespas
verrugas e venenos
en(vasados) embalagens

Só mesmo
um vagabundo (ou um vento de verão)
que vai
        volta
        vaga e
        vacila
para vergar-se a vulcões
                         de voláteis vontades

sexta-feira, outubro 12, 2012

Ano-luz


Procuro teu céu
Tua pele estrelada
Teu ritmo de nuvem
Curva acentuada

Procuro teu abismo
Tua voz supersônica
Teu abrigo de verão
Volta astronômica

Procuro teu verbo
Tua escrita feroz
Teu espaço vazio
Pés, milhas e nós

Procuro teu vão
Tua estratosfera
Teu ar rarefeito
Breve espera

Procuro teu voo
Tua nave a Vênus
Teu mapa exato
Sem mais, nem menos


terça-feira, setembro 04, 2012

Literatura no ar

A primeira série de contos do projeto Acorde Literário já está no ar pela Rádio Udesc FM 91,9, em Joinville. O primeiro programa foi transmitido no domingo (02/09), com o conto "O Coração Delator", de Edgar Allan Poe. Até novembro, o projeto vai levar pelas ondas do rádio contos dramatizados e breves biografias de 12 escritores clássicos. Começando por Poe, o projeto segue com Machado de Assis, Katherine Mansfield, Julia Lopes de Almeida, Virginia Woolf, Irmãos Grimm, Lima Barreto, Anton Tchekhov, Carmen Dolores, João do Rio, Humberto de Campos e Ernest Hemingway, nessa ordem. 

O programa, com cerca de 20 minutos, vai ao ar sempre aos domingos, às 21h, com reprise nas segundas-feiras, às 20h. O projeto, viabilizado através do Mecenato do Simdec (Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura) (Simdec), foi idealizado pela jornalista Fernanda Lange, que conta com os locutores Sared Buéri e Linda Tomelin na narração, e o editor de som Ivan Almeida na sonoplastia. "A ideia é atrair o público, que ao ouvir as leituras dramatizadas, se deixará seduzir”, comentou Fernanda, em matéria publicada no jornal Notícias do Dia.

quarta-feira, agosto 22, 2012

Saudade de tudo


O tempo inventou a saudade
Que a alma esquece todas as manhãs

Mas faz memorial e monumento
Ao cair da noite afora (e adentro)

E dentro da noite o tempo gira
Rabisca a saudade num muro de pedra

Mas apaga as invenções do dia
E todas as palavras pesadas de memória

Tal qual o martelo batendo na bigorna
O pêndulo da saudade reverbera
(deforma o oco da alma)

Mas enquanto as horas esvaziam-se
O dia nasce sem culpa
(é uma onda inédita)

Sabe-se que quem inventou o mar
Não tem medo de temporal

Mas eu balanço a qualquer vento
Ou mesmo na brisa que empurra os ponteiros
(e faz entardecer a manhã)

quinta-feira, julho 26, 2012

Noite

O olhar entrou na casa como um sussurro ao pé do ouvido.
Luzes apagadas, sala vazia, cozinha silenciosa, paredes sonâmbulas:
você dormia

Nas mãos, as coisas mais valiosas
No pensamento, um pesar pela rapidez dos acontecimentos
Saí, deixei a porta aberta como aviso. Não estraguei nada:
você dormia

Também roubei este poema de um livro que estava aberto sobre a mesa:
falava de amor

quarta-feira, julho 11, 2012

A esquina


A esquina nunca envelhece

Os carros passam
As pessoas
Um ciclista
E outro passarinho

Mas a esquina resiste ao movimento
Tem a idade da pedra
         a idade do tempo
         a idade de sempre

O semáforo pisca
A faixa se apaga
Os buracos no asfalto
A placa caída

A esquina
não se curva à rigidez do relógio
é menina atravessada pelo vento
é ângulo incalculável
– mais que dobra

Por isso
A esquina não envelhece
Porque
O vento (também) não envelhece

Velhas ficam as pessoas
quando não cruzam mais a rua
, nem para comer

E,
se a cidade fica vazia
sem gente nas calçadas
sem cruzamentos
nem passos

a esquina se esquizofreniza
se vê estorvo
          estúpida
          estranha

e (mesmo sem envelhecer)
morre: vira ex-quina
e assombro

quarta-feira, junho 06, 2012

Branco óbvio


A noite descama
É peixe morto
Lanhado pela faca
Pela faca de lâmina boreal revestida de auroras bem afiadas

No último solfejo
Espera sal e fogo
Sobre a bacia da manhã
Da manhã de outono frágil rejeitado por vadios e meteorologistas

O dia agarra o azul
É isca presa ao anzol
Num céu de tarrafa fina
Fina como a malha da pele enleada por fios secos de vento

Há um claro mistério
Entre o gole e o bocejo
No interstício da hora lenta
Tão lenta que assovia no ouvido a fisgada de um tubarão

quinta-feira, abril 19, 2012

Íngreme


A voz no vento
enerva
espalha areia e sal

A duna, íngreme
estrada flutuante
ecoa só

Rasga a garganta
ermo ar
espiando

O rastro: rápido memorial
escrito, estreito
ectoplasmático

Vigia o sol, por seu turno
espreme o grito
esganando

Dali, um segundo
escarnece da morte
ex-luz

quinta-feira, março 22, 2012

LP


Reverbero teu beijo
Num acorde mimético
Faixa a faixa
Frame a frame
Slow motion

Repetidas vezes
Re-sonho
Re-vivo
Re-play
Sonora meu sangue

Sinfonia dos lábios
Em vitrola de carne
Tua língua me ouve
Agulha na alma de vinil
B-side

Engulo teu sopro
Numa digestão orquestrada
Rosa, violino e partitura
A maestria do corpo
In concert

Na passagem de som 
A saliva equaliza toda dor
Tua boca me cura
Hide track
Acoustic single

domingo, março 18, 2012

9ª Feira do Livro em Joinville – 2012

A programação oficial da 9ª edição da Feira do Livro de Joinville está definida. O evento que acontece de 12 a 22 de abril no Centreventos Cau Hansen terá participação dos escritores Aderbal Freire Filho, Adriana Kortlandt, Affonso Romano de Sant’Anna, Alcione Araújo, Ana Maria Machado, Antônio Cícero, Fernando Morais, Maria Lúcia Simões, Regina Drummond e Sérgio Rodrigues, do pesquisador Carlos Chernicharo, do cantor Martinho da Vila e dos jornalistas Flávio Fachel e Fernando Bond.

A feira também será palco de diversos lançamentos literários de escritores locais. A programação vai apresentar os trabalhos de Eneida Raquel de S. Thiago, Vanessa Bencz e Luiz Antônio Selbach, no dia 13, Humberto Soares e Jorge Hoffmann, no dia 14, Mônica Fantin e João Marcos Buch, no dia 16, e Geraldinho Lemos Neto, dia 19. Diariamente, das 9 às 21h, ainda acontecem atividades culturais com contação de histórias e apresentações de música, dança e cinema. (Clique na imagem abaixo para ampliar).



Outro destaque da programação paralela será os encontros de autores locais. De 13 a 22 de abril acontece o Fala do Escritor, projeto organizado pela Confraria do Escritor que vai trazer uma dupla de escritores por dia (cronograma abaixo), num espaço voltado para a troca de ideias, divulgação de trabalhos e discussões afins. Já no dia 21, às 18h, ocorre uma mesa redonda com os blogueiros de Joinville que atuam na produção de contos, crônicas, poemas e outros textos literários na internet. Quem não tem um blog pessoal mas acompanha o que se escreve na Web também está convidado a participar.

Fala do Escritor:
13/04 (sexta), 10h: Donald Malschitzky e David Gonçalves
14/04 (sábado), 15h: Marcos Laffin e Nielson Modro
15/04 (domingo), 15h: Salvador Neto e Giane Maria de Souza
16/04 (segunda), 10h: Jorge Hoffmann e Miriam A. da Rocha
17/04 (terça), 19h30: Marco Aurélio e Talita Fernanda
18/04 (quarta), 15h: Mariza V. Rodrigues e Sandro Erzinger
19/04 (quinta), 10h: Nielson Modro e JB
20/04 (sexta), 15h: Marcos Laffin e Dúnia de Freitas
21/04 (sábado), 15h: Rubens da Cunha e Marinaldo de Silva e Silva
22/04 (domingo), 15h: Salvador Neto e Marco Schettert

Serviço
Data: 12 a 22 de abril
Horário: das 9 às 21h
Local: Centreventos Cau Hansen (Av. José Vieira, 315 – Centro – Joinville – SC)

quinta-feira, março 15, 2012

Desenigma


E se tudo for tão claro
Estupidamente claro e branco e triste
Uma catarata, avalanche, rendição

E se tudo for tão simples
Absurdamente simples e barato e infantil
Um grampo, um clips, bolha de sabão

E se tudo for tão reto
Rigorosamente reto e fino e contínuo
Uma tripa, uma travessia, um cordão

O que será do mistério
Das esquinas nebulosas
Dos esconderijos galácticos
Das noites espirais
?

Para que tantas bibliotecas
Ou explicações acadêmicas
Ou sermões pentecostais
Ou dicas da TV
?

Para onde irão as serpentes
Não haverá muros
Não haverá gatos
Não haverá esfinges
?

Tão claro e lúcido
Tão simples e reto
Tão céu e tédio
Tão estranho e nada

Tão descurvo e rente
Tão nivelado e firme
Tão limpo e suave
Tão seco e antipó

Em algum lugar um cemitério
Jazem curvas e tropeços e iras
Jazem fome e esgoto e bolores
Jazem teorias e cataclismas e caos

Em algum lugar a assepsia
E a revolta dos labirintos
E a revoada dos dragões
E a resistência dos poetas

Se não houver enigma
Não haverá descontentamento
Onde habitará a mulher
Ela, a criança e o balão?

Tão absurda e possível
Tão cega e reluzente
Tão interrogativa e certa
Uma dúvida, uma condição

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Prenúncio

Nem o vento
(que antes soprava)
Nem o burburinho
(das crianças ao longe)
Nem o barulho dos carros
(que antes irritava)
Nem o solapar dos chinelos
(deixando areia na calçada)

Reina na orla uma paz inquieta
O perigo iminente da solidão
Uma guerra por trás dos montes
Uma armadilha aos desavisados

Até a gaivota
(que dissimulava cortesia)
Até o cachorro
(que fingia amizade)
Até o gato
(que não engana ninguém)
Até o atendente
(que se faz de entendido)

Debandaram todos
Caranguejos, siris, lesmas
A fugir de um predador
Das profecias do apocalipse

Sentado à beira do trapiche
O pescador observa o mar
A tempestade sempre chega
Mas avisa antes. Ele sabe.
Google