sábado, março 31, 2007

Trilogia da Alegria Tardia

Vi TV e ri:
Não tenho nada pra fazer ou não posso fazer nada

Juntei os anexos e compilei:
Estava pronta minha dissertação de mestrado

Dormi no bar e sonhei:
Corvos eram amarelos e não devo me aposentar

[jb]

segunda-feira, março 05, 2007

Àgua do céu não é chuva

Naquele dia não havia territórios
apenas ar
arte
artifício
artimanha
artificialidade de parte alguma: um blue qualquer.

Olhava o céu
(sombra de futuro)
na cerca de manhãs-nuvens quadriculadas
enquanto o espírito do tempo
(cúmulo-nimbo de rpm's)
pairava na poça d'água
aguaceiro
aguardente
água-menina
água-rio-de-riacho-catarata: um H2O-vapor.

[jb]

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Telescópio

Ao nascer todos deveriam ganhar um telescópio. Abrir os olhos e ver logo. Ver longe. Ver de perto estrelas, astros, constelações, infinitos. Aos que vivem ao rés do chão, na atitude anfíbia de rastejar e respirar, respirar e rastejar toda a vida, não dá para imaginar que isso seja dignidade, seja natural. Ao nascer, todos olham para o teto, para o alto, mesmo ainda com os olhos fechados. Desde cedo, o primeiro desejo é voar, estar nas alturas, ver o céu, estar lá. A alma, antes do corpo, já busca andorinhas, solta pipas, viaja num aeroplano, faz guerra em naves espaciais. Mas os olhos abrem e esbarram no concreto. Rebatem no chão, no piso e acostumam-se a isso, por comodidade. Olham para baixo, cabisbaixo, perto, restrito, mínimo, desalmado. O peso da vida lhes chega cedo, um fardo invisível posto sobre os ombros de todos.

Talvez uma lupa, um binóculo, uma luneta. O ideal é o telescópio. Ver através da distância o longe. Marte, Júpiter, Plutão (o ex-planeta), outros sóis, andrômedas, luares de outras luas, olhos siderais. Tudo muito além do véu azul dessa Terra. Perto das retinas telescópicas. Ninguém mais quer saber de ver assim, observar o Universo em seus movimentos não-televisivos. Os meninos não empinam mais suas pandorgas, as meninas não namoram mais ao luar, o homem, depois da turbina, desistiu de ser pássaro, e a mulher, depois do tear, deixou de ser Vênus. As pessoas têm medo de avião. Aviões caem.

Esqueça televisão, rádio, internet, telefone, celular e outras maquinarias modernas. Elas passarão. O telescópio não há de passar. Ele está além do céu, da terra e da gravidade. Olhar pelo telescópio é viajar numa nave, navegar num espaço atemporal, sentir o Firmamento encostar na retina, sentir o silêncio repousar na alma, perceber Deus movendo os astros com suas mãos, num arranjo perfeito, harmônico, quase invisível. É se sentir parte da memória do Tempo e do Universo, dominando, por um instante, por um olhar, os sincronismos celestes: cúmplice da engenharia divina. É se sentir separado do chão, num flutuar cósmico: galáctico. Sentir-se cometa. Talvez meteoro, talvez satélite, talvez sol. O próprio Deus?

O telescópio torna o homem tão infinito, tão misterioso quanto o que observa. Imortal? Quem sabe? Perdeu-se o caminho, a visão, o olhar máximo. Os míopes cavam buracos no chão.

[jb]

domingo, janeiro 14, 2007

A Infantaria dos Dias

As tropas do Silêncio devem chegar amanhã cedo. Estamos há três semanas e meia com as palavras presas nas trincheiras. Só o que se ouve são insultos, provocações e lamentos. Coisas que os olhos e os tecidos do rosto sabem fazer muito bem. O posto de comando principal foi atingido durante o ataque surpresa do Tempo. Chegaram mais rápido do que supunhamos. Nos pegaram desprevenidos e não tivemos chance de nos defender. Não estávamos dormindo, embora fosse cinco horas da manhã. Inverno. Mas era como se estivessemos dopados, soldados sonâmbulos, bêbados, autoconfiantes, anestesiados pela soberba. O Tempo veio com seus pelotões de Dias, de Horas, de Semanas. Não podíamos esperar aquilo. Hoje sabemos que o Tempo é uma surpresa que devemos esperar a qualquer momento.

Havia um menino. Usava óculos: Morreu. Havia uma moça. Bonita e a gente não sabia o que aquela beleza formidável estava fazendo naquele lugar horrível: Morreu. Havia jovens e velhos. Havia um senhor que tinha um cão: Morreram. Havia um fábrica de papel. Havia um moinho. Havia um campo de cultivo: Haviam. Isso aumentou ainda mais o volume do nosso grito e agitação trêmula de nossas mãos. Passamos a depender dos dias e das noites após o ataque. Usávamos as madrugadas para chorar. Não havia lágrimas, é certo. Mas havia a Inconformidade, este outro líquido que também deforma a pele. Se antes andávamos curvados, agora o peso dos Dias nos faz rastejar. Somos cobras que uivam: Latência exata da derrota e da desonra: Éramos.

Amanhã nosso gritogemidogrunhido cessará. Seremos livres. E poderemos ficar despreocupados. Não haverá mais perigos. Cortaram nosss línguas, é verdade. Mas o olhos ainda enxergam. Daqui de cima as árvores parecem poucas. Não duvidamos que há muitas delas além do vale. E existe outras pessoas como nós. Outros sobreviventes. Deveremos aprender a partilhar o Silêncio a partir de agora. Seremos livres. O Tempo reina nesse país. Não lhe seremos escravos. Seremos da natureza das guerras: Inúteis. Soldados sem códigos, refugiados da Palavra em guetos atemporais.

Olhos mirando o Vale.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Trajeto

O MEDO SOBE A PAREDE
PARE
ARRE MEDO SOBE
ARREMEDO SOBRE
A REDE
A MESA
APARA
O MEDO DESCE
U MEDESCE
SEPARA
SE
O
MEDOSOBREAPAREDEPARAOMEDO
E PARA
E MEDE
O MEDO
E SOBE
SE
PARA


[jb]

sábado, dezembro 02, 2006

O homem que joga pedras

Acorda. A primeira pedra vai no rádio-relógio estúpido que acaba de acordá-lo. A segunda, na lâmpada que insiste em iluminar. A terceira, no vidro da janela sem cortinas. É uma boa maneira dele começar bem o dia. Ele é o homem que joga pedras. Cada canto de cada cômodo da casa tinha um amontoado de pedras, tal qual maçãs podres caídas do pé. Quando estava na rua, levava uma bolsa cheia delas e as usava todas em todo percurso. Ao chegar no destino, o devido reabastecimento seria necessário. No local de trabalho, um escritório, mantinha uma caixa com os bólidos calcários ao lado da lixeira. Diariamente esta também era reabastecida.

Ele sai do quarto com os pés sem proteção. Pelo corredor, antes de chegar à cozinha, percebe a televisão chuviscando na sala. Mais uma pedrada: vidros televisivos no carpete. Afinal, a chuva lá fora já era o bastante. Murmura algo e segue. Na cozinha, uma pedrada certeira bem no copo que deixara com resto de café de ontem: vidros cafeinados ao chão. Despreocupado, mas com certa irritação, ele avança até o banheiro. Um passo adentro, junta uma pedra, maçã das grandes, e lança contra o espelho: vidros esfarelados sobre a pia. Para quem o visse agora, juntando outra pedra, pensaria rapidamente que a jogaria dentro do vaso sanitário ou contra o chuveiro. Mas não. Num giro rápido de corpo atira na janela na cozinha, exatamente ao extremo de onde está. Vidros e pedras não se entendem bem naquela casa.

O homem toma banho rápido. Retorna ao quarto, não sem antes destruir com três pedradas o quadro de Monet na parede de acesso à sala. - Que diabos esse quadro faz nessa parede!, diz. Ou melhor, grita. Foi o primeiro (mas não único) objeto não-vidro danificado naquele dia. Fora o hábito impulsivo, ele é um sujeito tranqüilo. Arruma-se sem pressa, calça sapatos de couro. Pega a mala de trabalho sobre a escrivaninha. No percurso até outro cômodo, chuta uma pedra perdida ao chão. A força do chute é desproporcional. A pedra alcança altura e faz o telefone de gôndola sair fora do gancho. O homem faz cara feia. Irrita-se pelo ato foi impensado. Nesse outro cômodo, ele pega a bolsa onde carrega as pedras. Ele abastece com muitas delas que ficam depositadas num enorme baú ao fundo. Feito esse trabalho indispensável, sai de casa sem olhar para trás, com o escrúpulo de quem deixa o lar na mais perfeita harmonia. Na garagem, dorme o cão. Despede-se do animal em três atos: uma pedrada na costela, uma entre os olhos e mais uma na perna esquerda.

Não há cartas na caixinha do correio. Bom motivo para uma nova pedrada antes de atravessar o portão. E, excesso dentro da bolsa, algumas pedras caem no chão. Nervoso com as perdas, o homem mostra-se trôpego ao andar na rua. Entra no ônibus.
– Bom dia, motorista. Desculpe quebrar o pára-brisa!
– Bom dia. Já é o terceiro essa semana.
– Preciso melhorar.
Os passageiros o ignoram. Pelo menos até ele descer. À saída, quando o ônibus já ganhava velocidade, ele não perdeu tempo em atirar pedras na traseira do veículo. Agora sim, as pessoas de dentro o xingam, sem constrangimentos.
É um dos primeiros a chegar no escritório. Logo à entrada, ainda na portaria, joga com violência uma grande pedra, maçã das boas, na sirene da chancela. O guarda não reclama, visto esse ser um ato tão comum como, de imediato, apedrejar o carro da secretária – sempre o primeiro a estar estacionado. Ao subir da escada deixa em cada degrau, ao canto direito, uma pedra de forma arredondada. Com a bolsa ainda bastante carregada, ele chega, enfim, na mesa de trabalho. Uma pedrada no monitor do colega do lado, que ainda não chegou, e duas pedradras no próprio computador. Está aí uma boa maneira de dizer “bom dia, pessoal”. Alguém, o novo estagiário, responde o cumprimento com voz escondida. O homem considera a atitude como sincera e uma pedrada no rosto, mesmo a longa distância, faz o garoto ter um pouco mais de respeito.

Quando o comendador geral chega, percebe tudo na normalidade cotidiana. Copiadora, telefone, fax, vidro fumê do arquivo-morto, mapas na parede, aquário sem peixes: tudo quebrado, rasgado, danificado, destruído. Apedrejado. Aliás, quase tudo, simplesmente por uma coisa: o sangue do estagiário pelos corredores.
– Deu de jogar pedras em pessoas agora?
– Estou incomodado. Tenho pedras no sapato.
– Dormiu no escuro novamente!
– A lâmpada está quebrada.
– Você perdeu a sensibilidade, foi isso.
– Uma nova fase, talvez.
– E como resolvemos esse sangue?
– Tenho mais pedras...

Sim, era uma nova fase. Uma descoberta. Vidros, madeiras e objetos não sangram. O homem sai cedo do trabalho. Vai conhecer pessoas. Conhece. É atitude de coragem. Pensa que será interessante acordar com uma mulher ao lado amanhã. Já planeja que o rádio-relógio será o alvo da segunda pedra.
– Querida, quer maçãs?

quarta-feira, novembro 15, 2006

Hebdomática

Caminho
Um lugar que leva à outro é uma saída.

Rua
Do centro à periferia, a única diferença são os semáforos.

Travessa
Beije-me e afaste-se.

Avenida
Voltaremos ainda ao pó, com esse asfalto a enlamear os pés?

Rodovia
As palavras nunca precisaram tanto dos ossos.

Vereda
A jornada de um dia já não leva tanto tempo assim.

Atalho
A multidão atrapalha o tropeço do bêbado.



[jb]

sexta-feira, outubro 13, 2006

Presença

É extraordinário que hoje não chova por aqui. Conforme lhe havia tido, tinha tudo para ocorrer um temporal. O vento de segunda e o frio de terça eram prenúncios de terrível mal tempo para hoje. É, realmente, extraordinário. Foi por precaução que pedi para você não vir. Tentei não ser estúpido. Tentei deixar evidente que me preocupo com você. Acredito que sua presença tenha alguma coisa a ver com isso. Com o fato (extraordinário, repito) de não haver chovido. A sua teimosia em descumprir acordos. A sua impaciência em não deixar nada para amanhã. Então, você veio. Me pegou de surpresa. Não esperava. Sim, é verdade, eu não esperava. Te conheço, sei das tuas implicâncias. A sua vinda muda tudo aqui. Muda tudo daqui para frente. Com esse tempo bom, você vai querer saber de tudo. Dois copos sobre a mesa. A geladeira nova. A cama desarrumada. O dicionário fora da estante. E todo esse dinheiro. Você nunca deveria saber desse dinheiro! Você ficou fora por muito tempo. Eu precisei me arranjar por aqui, novas companhias, outros afazeres. Espero que você me entenda. A verdade é que deu tudo errado. Não choveu hoje, você veio e eu estou despreparado. Lamento. Eu vou de alguma maneira resolver isso. Mas sua presença aqui, hoje, extraordinariamente hoje, muda tudo. Em todo caso, fique à vontade. Você conhece melhor essa casa do que eu. Preciso pensar um pouco. Quando acordei e vi a claridade, pude pressentir. – A lucidez vem acertar as contas. Ela veio. É ela aqui sentada na minha frente. Arquejada, sim. Toda sem nuvens, mas com todas as pedras nas mãos. Eu vou de alguma maneira resolver isso.

domingo, setembro 24, 2006

Em paz

Desmaiara na morte – essa teia. Não sentia existência física. Ao chegar essas impressões, depois de um longo intervalo, perguntamos em brasa “não é o perfume uma melodia da aparência?”. Estas sombras falam figuras de paz extraordinária, como se houvesse, exaustas, à minha memória, coisas do coração. E depois, a simples existência recai na tentativa do julgamento dos juízes. Deitado sobre a mão, úmido por alguns instantes, ousava abrir bruscamente o negror da noite. A atmosfera permanecia abafada à razão. Todavia, se ele estivesse morto, tal suposição é incompatível com a realidade. Em que estados morriam as noites? Teria que esperar o próximo sacrifício. Não era possível fugir das outras prisões. Tinha pavimento de pedras e não luz. O sangue recobrou os sentidos num movimento rápido. Os braços, loucos, em todas as direções. Nada. Tinha medo de esbarrar no suor dos próprios pensamentos. Estendi em todas as direções os muros da minha sepultura, certo de que as imagens não atendem aquele que nunca desmaiou.

(a partir de exercício em oficina de criação literária)

sexta-feira, setembro 08, 2006

O nascimento de uma nação

Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos. Todos.

Tínhamos saído de um área desabitada, onde a desolação era a vizinha em qualquer sombra mal feita de galhos secos. Depois de dez quilômetros de caminhada, avistamos a construção à frente. Era Uma casa enorme que parecia estar deserta. E realmente estava. Entramos, eu e os outros quatro. Ao me deparar com o interior bolorento, lembrei do tempo em que a água ainda era abundante. Lembrei do meu irmão mais jovem. No trajeto, ao morrer meu avô, chamara meu pai e lhe dissera: Morreu teu pai. Morreremos todos nós, aos poucos. Meu irmão era um pessimista miserável. Cheguei até a esquecer-me dele. Admirava os outros três. Não eram da família. Eram amigos mais resistentes e esperançosos. Eu ainda olhava uma teia de aranha junto ao teto, e eles já estavam revirando a casa toda em busca de água e talvez algo de comer. Fiquei sozinho com meu irmão. Ele sentou-se numa cadeira esfarrapada. De súbito, saquei meu revólver e atirei fatalmente em sua testa suada. Morreu com cara de dúvida e com sede. Os outros comemoraram no outro lado: tinham achado um tanque de água e um veículo velho. Não comentaram nada sobre a minha atitude. Tinham a mesma vontade. Tive a certeza. Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Meu tempo sempre foi perdido; o dinheiro nunca foi achado.

Encontramos uma cidade à frente. Uma cidade deserta. Passei a ser a glória nacional. Uma nação de quatro pessoas. Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos. Todos.



[jb]

terça-feira, agosto 22, 2006

Escritos De Um Não-Lugar

Tudo em Translávia é rápido. A rua só é rua enquanto se caminha por ela. As árvores só são árvores enquanto há folhas verdes caindo ou balançando. As pessoas só são pessoas enquanto vivem: andando, pulando, escorregando, malhando, correndo, girando, agonizando. Não há memória, não há história, não há como voltar atrás. “Me movo, logo existo” é a única lei na Constituição. A inércia é o grande perigo de Translávia - um lugar feito unicamente de movimentos acelerados. É o país do gerúndio, da ação no tempo presente.

Alimásia é a capital. É uma cidade-turbina, onde a rotação das coisas está em velocidade máxima. Os carros, os ônibus, as multidões, os postes, as cartas, os sentimentos. Tudo existe num movimento frenético repetido a todo instante. Se algo parar, esse algo não existe. Por isso não há em Alimásia bancos de praças, camas ou cadeiras. Não há tempo de descanso. Não há tempo para dormir. Dormir é morrer. Na capital ninguém morreu. Na capital as pessoas vão morrendo. E ninguém se lembra destes que vão morrendo.

A partir da capital, a velocidade da ação diminui. Existem cidades de rotação média, rotação mínima e de rotação quase-nula. Em Algarávia, um lugarejo que se encaixa nessa última categoria, está ocorrendo um movimento social. A bandeira do anti-frenesi são agitadas por habitantes absolutamente contrários a instantaneidade de Translávia. O governador que mora na capital soube rapidamente do agito, ou melhor, do anti-agito promovido pelos rebeldes. É que os manifestantes andam devagar, moluscamente devagar pelas ruas, quase parando, quase não existindo, numa quase não-ação, atrapalhando a aceleração constante do trânsito. Pode se dizer que é o movimento do não-movimento, encarado pelo governo como ameaça nacional. Tropas do Exército vieram até Algarávia. Soldados colocaram os rebeldes para correr. Pessoas pararam: houve mortes.

O líder do movimento fugiu célere para as montanhas de Benísia. Não sabe mais por que fez isso. Só sabe que, cansado, parou. E parando, morreu. É do alto dessas montanhas que se percebe uma visão impressionante de Translávia: enquanto tudo se move, uma camada espessa de poeira se acumula na encosta do céu. Ninguém ainda se deu conta, nem mesmo esse que morreu, mas quando não houver mais chão também não haverá mais o país. Além de correr, os habitantes de Translávia precisarão voar.

domingo, agosto 06, 2006

O que aconteceu com o cão?

— Foi veneno!
— Tem marca de tiro na perna!
— Que tiro o que idiota! Isso é uma mordida!

— Três idiotas. Ele está dormindo.
— Ah, sim, dormindo. Descansou, vestiu o paletó de madeira, já era, bye bye, atravessou a ponte. E de veneno, foi de veneno.
— Deve ter entrado em casa de alguém, tentou pegar alguma coisa. Teve o azar de ser a casa do caçador. Um só tiro e olha o que temos aqui...
— Nada disso. Sem chance. Tem muitos deles no bairro. Andou com outros vagabundos e acabou se complicando. Comprou briga. Levou a pior.

— Ele respira. Está ofegando. Observem os pêlos do nariz a se moverem. Observem. Ele dorme.
— Os olhos estão vermelhos. As articulações, roxas. É o tipo de veneno para matar ratos de celeiro.
— Não há dúvidas. Pode até ser que morreu há poucas horas. Morto está. O sangue, qual a explicação?
— Ele era valente. Concordo até que tenha brigado. Dorme, descansando.
— Veja a baba amarela na grama. Efeito do veneno.
— A bala atingiu o fígado, certamente.
— Nada disso. A mordida do agressor comprimiu todos os órgãos internos.
— Nenhum do três idiotas nunca babou enquanto dormia?
— Rand Up.
— Calibre doze.
— Caninos.
— Zzz.

Os donos da casa chegavam. Os quatro ficariam observando do sótão. Tentariam ser eficazes na próxima noite.


[jb]

domingo, julho 23, 2006

Gato

Desceu, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto dos pobres familiares que cobriam a boca com as mãos enquanto se comprimiam ao pé da escada. Os dedos estavam ao ponto de apertar o gatilho. A arma postada junto ao ouvido. Ele pediu que ninguém interferisse, senão iriam ver o que não queriam. Passou pelo cunhado e elogiou a camisa listrada. Passou pelo sobrinho e o convidou para jogar futebol no domingo. O menino abaixou a cabeça. Passou pela irmã e agradeceu as tortas de limão que esta fazia. Passou pela prima e apenas fez um aceno de cabeça. Mais dois passos e chegou até o pai. Frente a frente com o velho, afastou a arma do ouvido e a deixou estar deitada na palma da mão direita, como um garçom que segura na bandeja um copo de água oferecido ao cliente. O pai ficou imóvel, e num silêncio trêmulo, recusou o refresco. O filho consentiu, segurou firme a arma e apontou novamente ao ouvido. O choro de uma criança na sala quebrou o silêncio. Ele nem piscou. Caminhou em direção à porta, dando às costas para os outros. Os olhares alheios eram espinhos nos ombros. Atravessou o limiar. Fechou a porta com a mão que não segurava nada. Alguém gritou lá dentro. No andar de cima, Lúcia e o outro já não existiam, mas estavam vestidos. O gato lambia o pêlo no telhado de zinco.

segunda-feira, julho 10, 2006

Novo Mundo

Trêmula,
a flâmula,
anuncia terra à vista.

Frenética,
a carne,
suspira por um descanso.

Instável,
a nau,
ancora ligeira na praia.


Estupro, à mata virgem.
Estranho, esse homem sem roupas.
Estrago, à natureza impune.

Antes, uma reza ao Nosso Senhor:
Pela Coroa,
Pelas almas,
Pelos naufragados,
Pela rica terra que hoje descobrimos.

Desculpe-nos pela bagunça.
A gente arruma tudo depois.

[jb]

domingo, junho 25, 2006

Trinômio da Aridez Humana

A TERRA
Do pó que somos feitos, fazemos nossas casas.
Da casa que nos abriga, fingimos nossos medos.
Do medo que nos acusa, criamos camas de barro.

O HOMEM
A peste assola ao meio-dia. O sentinela desapercebe o inimigo. O pai busca no bolso alguns trocados para o pão. Não se pode aguardar tempos de paz enquanto não chove, enquanto existir horas e prazos, enquanto haver coisas a serem guardadas, enquanto persistir a urgência em sobreviver.

A LUTA
José foi iludido por uma miragem. José desapontou a mulher e os filhos. José é tido como desonesto na vizinhança. José não foi à igreja no domingo passado. José vai deixar a cidade. José não tem cachorro pra levar junto. José não é um homem. José é só um nome.

[jb]
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