sábado, junho 13, 2009

Ontem

Há um amor sem sol e sem lua
Um amor que não rima, nem beija, nem promete.

Um amor desavisado
Avesso de desejos, encruzilhado numa rua de chão.

Um amor desgrudado da metáfora
Não contido em corações vermelhos atravessados por flechas inflamadas.

Há um amor sem cor e sem som
Um amor pra ser não visto, um amor não-poema, não-música.

Um amor estúpido de sorriso
De boca trêmula, pernas altas.

Um amor de pedra jogada no rio
Apenas um lance na água eterna, sem registro em fotos.

Há um amor sem jeito e sem querer
Um amor de roupa enlameada, descalço, que não caminha à noite

Um amor sem rosto, sem modos à mesa
Devora os dias como gafanhotos em plantação.

Um amor miserável, quase um ódio branco
Quase um desenho de criança, um abismo, uma fazenda sem cerca.

Há esse amor. Sem nome. Sem endereço.
Um andarilho. Porco, mendigo, analfabeto.
Feito de fome, sede e inverno.
Procure nos lugares vazios.
Ermo de gentes.
Está lá. Ontem estava.

[jb]

terça-feira, junho 02, 2009

Entenda o mundo

DA ESPECULAÇÃO FINANCEIRA

Especular é o verbo regulador do modus operandi no mundo contemporâneo, condenado ao eufemismo da exiguidade. O quociente da operação onde imperam o superávit primário e o déficit embrionário representa uma cifra avessa ao equilíbrio de monetização e à interferência dos agentes de referência dos estados nacionais. Especular está dialogicamente ligado a uma postura de indexar à existência uma não-existência, a qual só é possível nos trópicos das linhas imaginárias. O comportamento do dinheiro, na sua forma real, isto é, lastreado pela produção de riqueza pelo beneficiamento da matéria-prima dos recursos naturais, é análogo à ingerência dos estados nacionais e mercados financeiros transnacionais, inclusive totalmente fora do arcabouço de princípios teóricos das agências especuladoras mundiais. Conforme o reconhecido economista alemão Aston Burler, a supremacia da especulação não acaba com o “reinado do dinheiro vivo”. “O dinheiro vivo não morreu”, disse numa entrevista. E não deve morrer, pois as pessoas ainda pagam o cachorro-quente da esquina com moedinhas. A teoria do “dinheiro invisível”, postulada por Burler, mecaniza um atributo estritamente relacionado à gestão corporativa de bancos, financeiras e organismos afins, e que não dialoga com a economia cotidiana dos hot dogs. O ideal idealizado está longe do real vivido, portanto, há necessidade de construir pontos de ligação mais visíveis e práticos do que teoremas de especialistas. O protecionismo das taxas cambiais e dos operadores de crédito deve desaparecer com a presença de uma legislação mais efetiva, e isso não significa necessariamente menos tributos ou encargos. Deve, aliás, representar mais impostos, até a autofagia dos sistemas fiscais dos estados nacionais. A morte do Estado determina a vitória da especulação. A vitória da especulação nos avisa que os personagens dos quadrinhos eram reais. Nós que éramos os rabiscos do mundo.

[jb]

sexta-feira, maio 22, 2009

Pedinte

Respingue em mim teu beijo feito de ácido e flores
Me alimente com as sobras salinas de tuas palavras
Me cubra com céu estrelado de tua pele asfáltica
Deixe uma gota d’água pra mim na tua boca de oásis
Me dê um canto na tua casa iluminada
Me faça mendigo em tuas esquinas sem semáforos

Sou homem sem varandas
Sou apenas construção

[jb]

quarta-feira, maio 06, 2009

Bobo


Te tendo, tudo é resto
Nada é mais
E viveria sem reclamar
Só dos teus restos meridionais


Dos teus restos de cheiro
Dos teus restos de vinho
Dos teus restos de muitos
Dos teus restos sozinhos


Dos teus restos de ciúmes
Dos teus restos de dinheiro
Dos teus restos de pedaços
Dos teus restos inteiros


Dos teus restos de cama
Dos teus restos de jardim
Dos teus restos de paz
Dos teus restos ruins


Dos teus restos de riso
Dos teus restos de fado
Dos teus restos de sol
Dos teus restos molhados


Te tendo, tudo é resto
E mais nada
E viveria sem reclamar
Só dos teus restos de madrugada


Te tendo, tudo é resto
Nada mais é
E viveria sem reclamar
Só dos teus restos de mulher


Te tendo, tudo é resto
E teu resto é prato fundo

Não me deixe comer
Só dos restos do mundo

[jb]

segunda-feira, abril 27, 2009

Escritos enrolados

desgraçado

Desfez o acordo
Desdisse o dito
E desculpou-se
Pela desfeita.
::

cálcio

moço,
o osso
não tem
caroço.
::

Atendimento

Outrora
É uma hora outra
Que não agora
Quem entrou, ri
Quem não, chora
E quem ainda vive
Aguarde lá fora
Por ora era isso
O outro, por favor.
::

[jb]

quarta-feira, abril 15, 2009

Véspera da noite

Na varanda
Corre um vento morno
Tão leve
Tão azul
Não estranho

Quero-quero
João-de-barro
Gaivota
Tudo dormiria sonâmbulo
Sem as aves empenadas de poemas
Tudo respiraria azulejo
Sem as sombras voantes no varal

A estrada estreita só leva
Deixou de trazer
Levou os desenhos
Os carrinhos de madeira
O quebra-cabeças incompleto

Levou todos para trás da montanha
Se alguém viesse
Veria apenas a varanda
Sentiria o vento
Ouviria barulho de asas
Passaria

Se alguém viesse
Seria tudo
Tão estranho
Desazul

[jb]

sexta-feira, abril 10, 2009

Reparos

colocaram telhas na noite
manhã nasceu sem orvalho
tarde morreu com sede

as melhores chuvas caem de madrugada
quando estamos tão encharcados de vésperas
que até esquecemos de cobrir o espelho

[jb]

sexta-feira, março 27, 2009

Cor(re)lógio

Cara de agenda
Pés de compasso
E a pressa verde-semáforo

Caminha na faixa
Na direção das 16:30
De roupa branca-médico

Arrastam-se no asfalto
Atrasos de relógios diferentes
Em tom vermelho-comunista

Persegue o horário
Tropeça, cai, levanta: risos
Vê o céu azul-semgraça

Sob o vidro riscado
Ponteiros riscam a hora
O desespero é sem cor, mas amarelo

[jb]

segunda-feira, março 09, 2009

Dois sentidos. Um medo.

Havia certa displicência no olhar. Janelava um desinteresse sorrateiro, dissimulado, escandinavo, canino. Não, não era um olhar quente, de fogo, incêndio, combustão. Era um olhar de potência: inflamável, tenso, derradeiro. Um olhar em brasa. Brasa escondendo labaredas dentro. E tinha a pele. Lençol cobrindo a cama bem arrumada. A pele era parede branca, caiada, com aqueles carunchos esmaltados pelo tempo. Havia certa displicência na pele também. Mas uma displicência fria. Uma frieza dura, rugosa, aterradora. Ainda assim, havia certa beleza nessa pele. Sim, aquela beleza de cerca coberta de neve, de lago congelado, de floresta boreal. O gelo é a única coisa tão fascinante como o fogo. O gelo é um fogo sem chamas. E ali, sobre a cama, a pele recebia o fogo-brasa dos olhos. Os olhos inflamáveis derretiam com a pele ártica. As mãos tateavam a frieza da pele. Os olhos de fogo vigiavam o mover das mãos. Parecia, ao menos. Elas tentavam o redescobrir da pele. As montanhas de verão, os passeios de inverno, o florescer de setembro, o nublado alegre de abril. Os toques, as distâncias, as esperas, as surpresas, os convites, as graças. Tudo escrito agora, ali, na pele. Pegadas na neve. As mãos não tocaram os olhos: esquentava. Os olhos abertos, em vulcão. Estranhos. Não haviam visto de tudo. Viram o bastante. Viram uma tarde em que a cegonheira trazia carros à cidade. Achava que as pessoas chegavam assim ao mundo também. Viram as risadas na sorveteria. As conversas no banco da escola. O céu que parecia enraizar-se atrás da serra. Não, não. Eles não viram o bastante. Por isso o desinteresse. É uma espécie de vingança velada, feita de raiva, veneno e faísca. Pelo mar não visto. Pela data que não o esperou. O dia negado, o beijo negado, o poema negado. Os olhos resignam-se em fechar. E sobre a pele cai mais neve. Panos brancos nos móveis novos. A casa inédita, fechada. As mãos acenam. Um aceno difícil, eterno. Displicente. O engano tem cinco dedos e teme tudo o que queima.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Entenda o mundo

DA SOCIABILIDADE PAROXÍSTICA

Viver em grupo demanda uma catarse de sentimentos e habilidades diretamente convencionais a determinada conjuntura de valores. O agente humano, como elemento social ativo, não pode prescindir, na aventura humana da interdependência mútua, do componente incisivo da atuação, modificação e ingerência, próprio de qualquer ecossistema coletivo dotado de saliências idiossincráticas. O indivíduo, instrumentalizado pelos instintos e pelas convenções, compõe uma cadeia sistemática, notadamente arbitrária e cíclica, condicionante a certo desvio epistemológico onde a soma do conhecimento histórico não resulta, necessariamente, numa totalidade. O meio social é o conjunto de ações de suas partes mais o próprio processo do qual resulta tal conjunto, de maneira que as interações sejam cumulativas, mas não no sentido de “empilhamento” e sim na concepção da costura rizomática das múltiplas relações sociais. A experiência humana não prescinde a natureza do ser. O “ser” é a resultante de identidades específicas, únicas, intransferíveis em confronto com o “outro”. O denominador social desse confronto é a experiência. E a experiência, tanto a individual como a coletiva, é antitética por excelência. É por esses fatores próprios do humano que você odeia aquele vizinho que, displicentemente, emite sons e ruídos fractais altissonantes. Isto é, aquele filho da puta barulhento do caralho, conforme a nomenclatura de palavras torpes normalmente aceitável na sociedade moderna.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Impermeável

Asfalto, concreto, piso, betume, calçada, laje, cimento. Nada disso combina com esta cidade que chora chuva, respira umidade e tem o corpo encharcado. A água não consegue mais respirar. Não se infiltra, não se esconde nos tubos, não se aninha em seus lençóis. Ela não dorme, faz vigília o tempo todo sob céu estrelado ou de nuvens carregadas. As águas das torneiras, das chuvas e dos esgotos correm sobre dutos cimentados e entupidos, sobre o asfalto-lâmina que racha-se quando os líquidos tentam penetrar sua pele de piche. Na beirada da casa, o desaguar molhado de pingos bate em pisos intransponíveis. Ele tenta fugir, escorrer, deslizar: não encontra desaguadouro, drenagem, ralo. Revoltado, forma poças e alagamentos. Águas empoçadas esperam com rasa paciência o sol: tornar a ser vapor e subir aos braços inquietos de cúmulos-nimbos.

O cidadão líquido gosta de água. Mineral, potável, de coco, que-passarinho-não-bebe, gelada, do rio, do mar, da piscina, dos olhos. Odeia porém, um tipo de água: a água que voa, a água vertical, a água que deságua, a água-chuva-que-Deus-dá. Odeia tanto que faz tanques, barreiras e misturas químicas que impedem o mergulho da água no solo-esponja da cidade. Muitos habitantes molhados lacraram o chão onde pisam como cofres de zinco. Jogaram as chaves no mar e já esqueceram a combinação para abrir. A água que cai do céu não é bem recebida em sua própria terra. Ela faz vingança aguada à falta de zelo do homem impermeável: invade casas pelas portas, janelas e outros buracos.

Há água sobre o asfalto e não é miragem. Há poças nas calçadas recém assentadas, há pingos aglomerados esperando ônibus nos terminais, há águas reticentes no centro alagado e nos cantos mofados da cidade. A praça com espelho d´água virou chão cinza-cimento. Jardins e gramados viraram pisos decorados com desenhos de flores que não fazem fotossíntese nem bebem água. Chuvisco, garoa ou chuvarada estão impedidas de entrar nas artérias da terra: hemorragiam-se todos os dias, chova ou faça sol. As águas das chuvas e dos rios reclamam seus ciclos, caminhos, bueiros e saídas. Querem correr as correntezas e quedas que lhes são próprias. Obstruída, água parada é morte, sujeira e medo. O limo no muro, nas trincas dos paralelepípedos e nas rachaduras da parede são avisos da resistência aquática. A água derramada quer apenas ser água, deixar-se levar pelos poros do chão, entrar no casulo da terra e metamorfosear-se em novas nuvens, novas chuvas e novos rios em verões do por vir.

Calhas, encanamentos, tubulações, conexões, drenagens, sulcos e escoadouros são palcos perfeitos para os movimentos dançantes das águas e o respirar altivo da terra. As águas precisam ser livres para que todos possam andar pelas ruas sem precisar vestir aquele desconfortável escafandro.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Confecções

Respirava a angústia torta.
Sinos de Belém em abalos e badalos
Na catedral dAquele que tudo vê

Transfigurado em preces & soluços
Mordiscava o ar com palavras insalubres
Malabarismos de corpo
Saliva em nó
Petições plagiadas de profetas

Portas fecharam-se, desonradas
Janelas em estalos: cegavam-se
Tijolos transpiravam poeira & pólvora

Há ruína quando chora-se.
Dentro.
Tal qual tanques suando bombas.
Fora.

E toda ruína traz no bolso um lenço branco.
Nunca se sabe.
Nunca se calculou o ângulo de um corpo ajoelhado.

[jb]

terça-feira, janeiro 13, 2009

Hebdomática

Água
Se o olho d´água chora não vemos as lágrimas.

Terra
Apenas cegos cultivam abrolhos.

Ar
Morrer é de perder o fôlego!

Fogo
Viver é incendiar-se. Mas não nascemos fênix todos os dias.

Gelo
Nenhuma água congelada ficará impune no tribunal das rochas.

Vento
Ele assovia para ela. A tempestade chove apaixonada.

Sal
Por recomendação médica, os canibais aderiram à comida insossa.

[jb]

domingo, janeiro 04, 2009

Prêmio Dardos

Recebi do ilustre colega de palavras Borges de Garuva o selo do Prêmio Dardos. Vindo de quem veio não poderia recusar.
Conforme texto que circula junto com o selo, "com o Prêmio Dardos se reconhece os valores que cada blogueiro mostra cada dia em seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras". A idéia é promover o intercâmbio entre blogueiros através do reconhecimento de suas contribuições à blogosfera e à Web.

De acordo com o script, quem recebe o prêmio deve seguir estas orientações:
a) exibir o selo do prêmio;
b) criar vínculo para o blog do qual recebeu o prêmio;
c) escolher outros 15 blogs a serem premiados.

Vou quebrar o protocolo e citar só alguns. Os links ao lado já definem por si só a minha lista premiada de leituras e visitas frequentes.

* Legendas & Etcaetera, do além-mar CSA.
* Notas Mínimas, da Katherine Funke.
* A Garota Distraída: Vanessa Bencz.
* Caixa de Hai Kai, do Seabra.
* SpaceMelato, do "manezinho" Fabiano Melato.
* No Mundo da Lua News, o blog do Divino.

[jb]

sábado, janeiro 03, 2009

Encontro Silábico

Esperava com olhar circunflexo
Na fala, a voz aguda perguntava as horas
Tinha um cheiro tônico (dos que vivem perto das florestas)
E seu ouvido oxítono captava até meu sussurro
Minhas palavras foram sem ênfase
As dela bastante acentuadas
Despedi-me com um hiato
Ela, com um toque diferencial:
a mão direita reticente sobre o meu ombro analfabeto
Fiquei com o rosto craseado
enquanto meu olhar hifenizava o gesto de separação
Entrei no coletivo
Ela, singular, permaneceu no ponto
Tomei assento
Ri o riso minúsculo das vogais fechadas
Senti-me quase-verbo

Ela tinha a pele ortográfica
As pernas intransitivas
Os cabelos conjugados com os olhos

Eu, sujeito de entrelinhas
Ela, pronome reto
parágrafo único
minha oração nos domingos sem palavras

[jb]
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