quarta-feira, dezembro 09, 2009
Entenda o mundo
terça-feira, dezembro 08, 2009
Saldo
Náufragos cansados esperam a fuga
Eles sempre retornam no outro dia
O cartão de passagens dá para o mês inteiro
quarta-feira, novembro 18, 2009
Incendiário
Quando tudo é desmanche e brasa morta
Quando palavras em cacos, pedaços, carvão
Anseiam respirar fora dos escombros
De ruínas ergo varandas e sacadas
De muros caídos levanto palácios
De mansões fumegantes faço jardins
De ruas esburacadas pavimento pisos decorados
Em versos e estrofes reconstruo a cidade
Casas sucumbidas ao fogo voltam a aquecer
Fábricas apagadas retomam seus barulhos
Esquinas de cinzas espalham cruzamentos
Não me prosto ao caos e ao desespero
Não me prosto à bomba e ao meteoro
Não me prosto ao trovão e à enchente
Não me prosto ao assassino e à fuga
Permaneço e me elevo
Subo a escada que construi
Chamo os habitantes às moradas
Antes mortos, agora vivos, natos
Escrever é obra de ressurreição
Empreitada de três dias (ou nem isso)
Ascendo ao céu quando tudo pronto
Então deito e descanso e amanheço
Me carrego de substantivos e vírgulas
Até que alguém grite verbo inédito
No quinto andar de um prédio em chamas
Espero o desabamento e vou
Levo pás e tratores
Numa caixa, livros e discos
A letra é manifesto quando sufocada
A canção é linda quando reverbera no pó
terça-feira, outubro 27, 2009
Oca sombra
Há um brilho boreal de manhã fria e branca
Há uma luz que semeia sorrisos em campos de neve
Há uma névoa acorrentando duas respirações
Eu vim de longe
Carrego na sola mapas de descobrimentos
Na palma das mãos, anagramas de vontades
O pó, o asfalto e a lama testemunham a jornada
Uma palmeira alta, um gato pardo e uma menina azul
Ouviram minhas composições
Hoje, dia plagiado de ontem
(num deslize criativo do Criador)
Neste vale de montanhas infinitas
Encontro teu olhar de galáxia
Vejo teu cabelo de cores vespertinas
Orbito teus desenhos de noite aberta
Eu, seco e lento
Eu, tolo e espinho
Eu, caminho estreito
Eu, miopia e fraqueza
Eu, amarras e cercas
Eu, pedra, cisco e gelo
Me penumbro
Me vazio
Me mudo
Analfabeto
Entre tua pele e meus olhos
Entre tua boca e minha música
Oca sombra muralha o renascimento do mundo
Você ainda me atravessa
Levo na garganta as iluminuras da tua palavra
Por isso falo xadrez e escrevo branco
Me revelo em respingos no abrir da tua varanda
Mas sou muito desabrigo para morar na tua casa
terça-feira, outubro 20, 2009
Deus também tem quatro letras
Arranca ângulos de tempestades
Traz noite e ânsia
O medo é quarto: túmulo aceso
Respira o odor fóssil do antes
Gargareja mofo e angústia
O medo é quadro: adorno na alma-de-estar
Visita a infância de correrias e sol
A perna sem cálcio não pisa mais o chão
O medo é quarteto sombrio:
Morte, culpa, fraqueza, covardia
Toca instrumentos de sopro
Crava espinhos roucos na plateia
O medo é quatro: usurpador da trindade
Número de voo em abismo
Múltiplo de cadáveres na segunda
O medo é quadra: geometria de assassinos
Espreita nas esquinas os preocupados
Faz muros bloqueando fugas
Eis o medo:
Fogo frio
Água negra
Estátua de vento
Poeira dos cantos
Eis o medo:
Hipotenusa dos fracos
Eis nosso inimigo, meu amor
terça-feira, outubro 06, 2009
Rã cor
amarga amarras marrons
por dois azares azuis
Ele, verme vermelho
amara amarelo
deixou ela de rosto roxo
A puta púrpura
bradou brancos femininos
Mulher de verdes verdades
abriu porta de lilás liberdade
gritando desgraçados degradês
Enquanto arranha paredes
em cinza cinzas
Na feira ela compra
laranjas (bem) alaranjadas
quarta-feira, setembro 30, 2009
Corredor
Toda vez que saía do escritório, ao fim da tarde, passava na ótica para ver modelos de óculos. Cada dia era um diferente. Tinha interesse, na verdade, pelo guardador de veículos ao lado. Rapaz normal que veste sempre uma camisa verde. A cidade não permite muitos contatos. A vida é pequena, nesse sentido. Tudo pode girar ou ser grande, mas no campo dos relacionamentos há uma pequenez de corredor. Há um terror que assola todo dia. Nervuras de dias inteiros de sol e pedidos. Quando chega fim de semana, chove castigando.
Havia displicência com o futuro, com a preocupação comum de sobrevivência e respeito. O que queria era pequeno. Teria de se mudar. De cidade, de profissão, de planos. Depois de dois meses chovendo nos finais de semana, decidiu que no próximo domingo-sol visitaria o lugar indicado no catálogo turístico.
quinta-feira, setembro 24, 2009
Tarrafa
A vida não era fácil, todos sabem. Nunca foi para ninguém. Nascer homem é sempre melhor num mundo desses. Ele se lembra de uma conversa entre o pai e a mãe quando tinha lá seus dez anos.
– Ainda bem que temos ele. Já imaginou três mulheres em casa! Seria muita incomodação.
– Mas ele com esses sonhos de médico ainda vai dar trabalho. Sei lá. Ainda é cedo. Talvez mude de ideia. Algo próximo da gente. Menos barqueiro.
– Não sei. Ele sempre fala nisso. Desde que viu aquela revista. Até pediu a revista para o homem. Está lá guardada na gaveta.
– E a Gabriela sempre chegando depois do horário. Ah, menina...
Estava chegando da escola, quando pescou o diálogo. Levava jeito.
quinta-feira, setembro 03, 2009
Onze palavras
Era um domingo. Bom dia para terminar coisas atrasadas. Beto chegou cedo, quando ainda não havia ninguém no parque. Esperaria até o meio dia. Daria tempo aos jornalistas para fazerem a matéria completa amanhã. Beto conversou com várias pessoas. Até com crianças. Não tinha muito jeito com elas. Falava bem mesmo era com as mulheres.
Ele era da própria cidade. Nunca fora no parque, no entanto. Sentia-se como estrangeiro. Era o único ali sem máquina fotográfica. A torre até que não era alta. Um pouco mais que cinquenta degraus metálicos. Do alto do penúltimo degrau, quando já era possível ver a rodovia que risca a serra do mar, ele percebeu em sua curiosidade rara um homem conversando ao ouvido com uma mulher. Namoro na torre?
Era o dia de Beto. Domingo. E ele não iria embora sozinho. Pensou numa criança que pulava sobre a plataforma o tempo todo. Incomodava. Mas quando viu a mulherzinha, não teve dúvidas. Era ela. Beto se aproximou. Falou palavras. Onze. Baixinho.
A curiosidade de turista o chamava para o outro lado. O da praia. Um passo acima e poderia contemplar a cidade com olhos panorâmicos. Já na plataforma, ele pode ver que a rodovia na montanha é como uma cachoeira listrada. Daria bom quadro para um pintor medíocre. Lembrou-se do homem e da mulher. Olhou. Haviam descido. Sem passar por ele.
Os jornais deram a notícia com riqueza de detalhes na segunda. Beto saiu na capa. Ela não, só o nome. E a transcrição de um bilhete com palavras. Onze.
Ele demorou lá em cima. Nem percebeu o alvoroço lá em baixo. Ficara deslumbrado ao ver a cidade de um modo nunca visto. Ele morava ali havia 35 anos. Quando desceu já passava do meio dia. O parque estava tranquilo. Famílias faziam piquenique nos gramados. Foi uma tarde feliz. Coisa que não sai no jornal. Pena que ele não é de se interessar pelo que acontece na cidade. Não lê jornal.
sexta-feira, agosto 21, 2009
Dias a fio
Chaminé acena fumaça
Casa convida papo de varanda
Jardim estaca foices
Calçada desenha avisos
Cadeira balança senhora em tricôs
Infância atravessa cerca
Carro passa longe
Costume ninguém dormir
sexta-feira, agosto 07, 2009
Urbana Ave
Carentes de edredons e quenturas
No coração cimentado
Busco migalhas pelos cantos
Onde pneus não lambem
Nem pisam sapatos encardidos
Caminho num vagar de trem chegando
Cuidadoso de olhares e passadas
Que dilatam minha calma insustentável
Percebo todos os movimentos
O esbarro, a correria, o pulo, o aceno
Mas só vejo bem coisas paradas
Desconfio sempre das crianças
Elas costumam parar
E, parando, me distraem dos cuidados
Detesto barulho e chuva
Vassouras e pás são meus infernos
Posso voar, devo agradecer
Não entendo essas pessoas amontoadas
Esculturas encharcadas de pressa
Redemoinhos de pó, buscam ventos
Ontem vi uma menina de asas
Hoje já estava de uniforme
Tenho pena
sexta-feira, julho 24, 2009
Rara leveza
A rara leveza da dança é a rara beleza da criança. Da leitura do mundo pelo olhar de vislumbre. Do olhar o mundo com olhos de avião ou de pássaro inquieto. Do voo, da aventura como necessidade. Uma necessidade solta, insignificante, apenas agasalhada pela seda branca do vento. A rara leveza da dança é feita do mesmo peso dos sonhos. Um peso ligeiro, ágil, livre, inconsciente. Uma leveza da mesma que habita a imaginação, os quartos de sol, as janelas abertas, os cabelos loiros da mulher de vestido xadrez e as borboletas de setembro. Uma leveza de balão com velocidade de jato. A rara leveza da dança é quase som. Não raro, um canto feito só de gestos. E tintas. E olhares. Daí pintura: passeio à beira da colina.
Não há medo nos quadrantes da leveza. O compasso das pernas risca semicírculos breves de calma, entrecortados por saltos de espanto e de grito. Não um grito de temor ou de crime. Grito de cachoeira, espanto sublime. A sapatilha da bailarina é escudo na escuridão. Paredes, palco e plateia são florestas de névoa. A luz só ilumina o escudo, só reflete o corpo de espelhos da menina que veste plumas. Não há nada mais a olhar, não há notas de rodapé, não nem mesmo o horizonte. A rara leveza da dança, da dança em versos dos pés da bailarina, só existe em função da altura. A distância vertical entre a sola do escudo tecido em fios com a lona do tablado. A distância entre o piso e o topo desse tablado. A distância dos olhos até o piso. A altura do voo até os olhos. Há uma rara leveza que flutua o olhar. E qual criança não quer ser nuvem colorida? Ou bolha de sabão?
quarta-feira, julho 22, 2009
Hebdomática
Cada resfriado tem a tosse que merece.
Anemia
Têm sangue branco os que promovem a paz? A guerra e o amor são vermelhos.
Diabetes
Evitei tua carne doce. Hoje durmo com árvores.
Faringite
Desde que deixou de falar, anda desdizendo.
Lepra
Os desertos andam lotados ultimamente.
Catapora
Desconheço o que havia a.C. Não achei nada no Google.
Osteoporose
Pai, se o leite é bom para os ossos, porque o queijo suíço é cheio de buracos?
terça-feira, julho 14, 2009
Cinzazul
Tardeatrazer
Ventosopranos
Terramarela
E tantasobrasementes
Raiordinário
Experimentagora
Andaremando
Sobressesoloutrorantigo
Mas aindalvo
E tudo virespasmolfatorelhalmavalanchenzima
Carnestragadartenigma
Olhestefêmeróvulo-mundo
Como correialgemalarmescada-rolante
Tremarimbondoumarapucantesilenciosagorarmada
Vejanela
Ruafora
segunda-feira, junho 29, 2009
Fósforo
40 palitos numa caixa 4x5x1,5cm são as tentativas possíveis.
1 galão de gasolina comum e 2 litros de álcool de cozinha foram depositados ontem à noite atrás do armário onde ela guarda os alimentos.
O texto está com 1,5 parágrafo e já perdi a contagem do número de palavras. Talvez 293. Nas 3 contagens, deu 3 resultados diferentes. Não pode é passar das 400. Será longo e ninguém lerá.
O quarto tem 4x5m. A cozinha tem 7x4m. A sala é quadrada: 5x5m. O banheiro 2x3m. Não tem garagem nem lavanderia. 198 é o número da casa. Coloquei isso no texto. Os jornalistas gostarão desse detalhe.
Ela saiu às 6h22. Tenho só ½ hora.
Vi agora. Ela tirou tudo. Não há cadeiras, nem mesas. A escada fica lá fora, num rancho. Tem 7 degraus. A porta ficou fechada. Não alcanço a caixa com os palitos. Vou planejar melhor para amanhã. Estarei crescido também.
“Efetue as somas abaixo:”
Odeio tarefas da escola. Vou recontar as palavras. Vou assinar com meu nome completo. Quanto estou medindo?
