quarta-feira, janeiro 23, 2008

Caixa da Memória

Hoje mesmo me perguntou o cronista:

1. O que você estava fazendo em 1978 (há 30 anos)?
Respondi:
Eu ainda era a respiração de Deus.

2. E em 1983, há 25?
Respondi:
Estava na cama com uma mulher.

3. O que você estava fazendo em 1988?
Respondi:
Exilava-me para Joinville.

4. E em 1993?
Respondi:
Escrevia meu plano para mudar o mundo conforme meus ideais.

5. O que estava fazendo há 10 anos?
Respondi:
Escrevia meu plano para mudar meus ideais conforme o mundo. Nos intervalos fazia poemas concretos e admirava as loiras.

6. E há cinco?
Respondi:
Criando este blog, que era em outro lugar (http://www.caixaderessonancia.blogger.com.br).

Agora, pergunto aos amigos abaixo o que eles têm escondido na caixa:
Douglas
Fran
Isabel
Cláudio

[jb]

Quatro cadeiras

SAL
O rosto temperado
Os olhos de molho
A boca em brasa

condimentam o domingo insosso na tua carne crua

sirva-me


AÇÚCAR
Algodão-doce na mão da criança
Sorriso diabético nos lábios da mãe
Receita médica debaixo do pacote de bolacha

fermentam em banho-maria a satisfação rica em vitaminas

sirva-se


AZEITE
Alívio imediato das dores
A quem come dos manjares do Rei
A corda da forca foi lubrificada pelo Ungido

e o cadafalso está ensopado de culpa

deram-me um prato de papelão


FARINHA
O garfo mexe a água quente: faz pirão
A língua não sente mais nenhum sabor
O estômago devolve as comidas de sempre

ele sabe: a sobremesa tornou-se a refeição principal

não aprendi a orar antes de comer

[jb]

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Hebdomática


Queria acordar com jazz todos os dias.


Deus sabe tocar gaita de boca. Tenho inveja dele.

Mi
Seria possível amar todas as pessoas se elas não fizessem barulho.


Você estava no útero e não se lembra do som dos passos de sua mãe.

Sol
Para toda nota sustenida há uma chuva bemol.


Por que música é Matemática e não Português?

Si
O silêncio é um zero de timbre grave.

[jb]

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Trópico de vidro

Tenho linhas nas mãos: me embaraço
Perdi a serenidade quando me olharam com a lâmina dos olhos
Foi quando chorei pela primeira vez
Minha mãe limpava a sala costumeiramente

Eu era uma regra côncava: espelho protegido das tempestades
Animava os gatos e os cachorros (bois pastavam)
Fazia cerol com os avisos
Os castigos inaugurais da minha passagem ao Norte
Meu flagelo: minha súplica
Acreditava – ainda – no ar puro, varanda com cadeira
Ter poucos conhecidos seria o melhor refúgio caso pudéssemos colocar a mesa lá fora

Ninguém me obedece
Na minha transparência, sirvo as conversas dos outros
Falta-me água: falotantoquantoprecisoandar
As roupas no varal não eram minhas
Trazia nas mãos apenas um suor
Suor feito de asfixia – preso a mim como âncora
Se me molho, deixo de ser fio. Fico novelo

Tenho uma habilidade com os olhos: vejo
Percebo a trapaça, a sujeira, a curva, alguém varrendo o chão
Nunca vi a rua pela janela da sala
Ainda posso rezar
Aprendam: a pior solidão é quando temos de orar sozinhos
Deixe sempre limpos os pratos para o jantar

Uma voz oxidada ao Sul: alfinete no ouvido
Não volto
À pele estilhaçada falta a película das tuas partes mais quentes
Sigo.

[jb]

quinta-feira, novembro 15, 2007

Da Complexidade

Tese de Doutorado de Platão (427 a.C.): A República.

Tese de Doutorado de Clayton (2007 d.C.): A Assimetria Foucaultiana entre Público e Privado nas Relações Político-Partidárias na História Recente da Democracia Republicana Brasileira: uma caricatura teórico-analítica sobre os paradigmas de discurso, ação, memória e linguagem na simbiose antropofágica entre poderes constituídos, movimentos reacionários e legislação federal para além dos conceitos da teoria marxista e da ideologia neoliberal pós-moderna.

sábado, outubro 27, 2007

Página 161

Recebi o desafio através desta Casa.

1ª) Pegar um livro próximo (não vale procurar);
2ª) Ir até a página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

E publico o resultado:

"O cara da esquina, nunca havia reparado nele ali, no outro lado da rua, seguindo-o com os olhos, na sombra do prédio da prefeitura."

In: Algumas Ficções. Antologia de Contos. Paraná: Editora De Leon, 2007.

Repasso o desafio mnemotécnico a Vanessa Bencz (menina-talento que tem textos publicados no referido livro), ao amante de Leminski, Calcinoni, a esta outra menina (de olhos meigos e escrita fina), ao Léo, e a dupla que, a quatro mãos, nos espetam em Cinco Espinhos.

[jb]

segunda-feira, outubro 22, 2007

A Monotonia do Fogo

O fogo só queima
e só.
O fogo só arde
e só.
O fogo só consome
e só.

O fogo não faz nada além do que deveria fazer

Em suas tripas fulgurantes
Encena o tédio
- maquinalmente engendrado
do cotidiano líquido-imperfeito

O fogo não tem autonomia. O fogo é perfeito
O fogo não faz nada além do que deveria fazer

Há fogo na brasa
Há fogo na cinza
Há fogo na fumaça
Há fogo onde há furor
chaleira fervendo café quente asfalto da praia lixo da cidade forno de pão crematório floresta seca laje de pedra maçarico motor turbina lixão chepa de cigarro paixão olhar assassino avião bomba vermelho sexo grito muro vulcão

Há fogo na cor dos teus olhos. O fogo não tem olhos.
O fogo não tem autonomia. O fogo é perfeito
O fogo não faz nada além do que deveria fazer

O fogo é um estranho
Um estranho gafanhoto
Gafanhoto que consome a lavoura
A lavoura do dia pela raiz
Pela raiz encravada na terra
Na terra encharcada pela água

O fogo sente fome. Ele precisa do que planto
Há fogo na cor dos teus olhos. O fogo não tem olhos.
O fogo não tem autonomia. O fogo é perfeito
O fogo não faz nada além do que deveria fazer

O fogo se cansa
de só queimar
de só arder
de só consumir
O fogo tem sede de líquidos
álcool, gasolina, querosene, óleo, mercúrio
E tem sede de sólidos
lenha, carvão, papel, tecido, osso, plástico

O fogo está preso na própria combustão
O fogo ateia-se ao próprio incêndio
O fogo queima por si só
O fogo arde por si só
O fogo consome por si só
E só

O fogo é um ingênuo. Só não sabe que depende de mim
O fogo sente fome. Ele precisa do que planto
Há fogo na cor dos teus olhos. O fogo não tem olhos.
O fogo não tem autonomia. O fogo é perfeito
O fogo não faz nada além do que deveria fazer

Meu olhar é um sopro.
Meu olhar é um vento.
Num rápido piscar, nasce o fogo.
Num rápido piscar, morre o fogo.
O fogo é cego: gafanhoto perfeito.

O fogo me chama
e só.
O fogo não faz nada além do que deveria fazer

[jb]

quarta-feira, outubro 03, 2007

π

Somadas ao fogo,
palavras equacionam o momento exato da combustão
- todo incêndio é a raiz quadrada da imprudência.

Silêncios não podem subtrair-se
caso contrário, ossificam a pele
- toda guerra é o quociente exato entre pensamento e voz.

Sinais margeiam as ruas
crescem em progressão geométrica
enquanto o homem se aninha em retângulos perfeitos
- a multiplicação dos dias ainda dá um valor negativo.

Simétrico é o inferno
fractal é o céu
Nas esquinas números com vírgulas querem ser frases.
- todos os algarismos nasceram de uma espiral

Sombras matemáticas engolem frações
a fome é uma dízima periódica
o desejo, uma sede emprestada
- qual o mínimo múltiplo comum de uma serpente?

[jb]

domingo, setembro 02, 2007

Prontuário

Ignorava a distância entre manhã e noite
Ignorava o fato de haver calendários
Ignorava a presença das pessoas no quarto
Ignorava a leitura de livros clássicos

Só percebia a árvore lá fora
A copa, os galhos, as folhas secas
Quantas estações se passaram?
Quantas promessas?
Quantas visitas?

Agonizava por uma incredulidade
Por que o jardineiro não vem mais limpar o jardim?
Os ciscos cobrem o chão
O musgo sobe a parede
Alguém, por favor, feche esta janela!

[jb]

segunda-feira, agosto 13, 2007

Na Central

Eles estão ali. Caminham, comem, bebem, encontram-se, descansam, vivem. Não estão nem aí para os demais. Despreocupados com horários, itinerários, chegadas, partidas ou atrasos, não se acotovelam com os outros na briga por um lugar ao assento. Não olham com raiva ou desespero para os motoristas. Desconhecem os fiscais, o que é fila, o que é tumulto, o que é aperto. O que é falta de educação. Transitam com a calma que lhes é pertinente no meio dos andantes frenéticos à espera do ônibus, a correr para o ônibus, a xingar o ônibus. Se fosse possível parar e olhar dentro de seus olhos, veríamos a própria quietude circunferenciando suas nuances ancestrais de serenidade sobre um mundo opaco e nervoso.

A poesia transparente em seus olhares definitivamente não pode ser encontrada nestes terminais, nestas indústrias, nestes comércios, nestes corpos humanos atravessados de rotinas e canseiras. Entre seres marrons e veículos amarelos, eles se mostram manchados de cores incompletas, carregando sobre si os mistérios da criação. Embora altivos, são humildes o suficiente para não terem medo do que lhe é exterior ou de seus semelhantes. Ignoram a velocidade dos carros e a indiferença dos observadores. A criança olha, ri, aponta o dedo, acha graça. A mãe logo a puxa para dentro do veículo. A criança chora e a mãe não sabe por quê. Os jovens tentam assustá-los. Aceitam a brincadeira sem nenhuma truculência. O velho os seduz com algumas pipocas, na esperança de alimentar nostalgias esquecidas. Eles aceitam a proposta, já que não têm muitas opções numa cidade feita de concreto, asfalto e fios elétricos.

As manhãs de sábado passam devagar para eles que compreenderam, desde sempre, que segundos, minutos e horas são apenas gritos da cacofonia diária do tempo vociferado em murmúrios e silêncios amargos. Eles não falam. Não precisam. Apenas sentem o mundo se movimentando sob os pés, enquanto caminham pela plataforma e comem pipoca. E voam: são feitos de liberdade.

domingo, julho 22, 2007

Sem travessia

Quando cheguei perto do vento, o mar me espiou. Sabia o quanto eu era curioso, mas desconhecia minha obstinação. Não me deixou andar na areia. Nem subir nas pedras verdes. Apenas molhei o pé.
E caí.
Quando a gente vira temporal, o mar já foi há muito furacão.

[jb]

domingo, julho 08, 2007

Monografando

Ao amigos e amigas que quiserem me acompanhar numa viagem sideral, sigam o link abaixo para embarcarem:
http://www.nebulosadobumerangue.blogspot.com/

[jb]

Meteorológica

Chove a palavra
sobre o altar de sacrifício
sobre o virgem papel
sobre a árvore sem raiz

Chove a palavra
e não é líquida, não
é granizo
é gelo
é ferrugem

Chove a palavra
no rosto mudo
na criança que pergunta
no velho descalço

Chove a palavra
inclinada e asséptica
em busca, apenas
de um telhado para cair.

[jb]

quinta-feira, junho 28, 2007

Restituição

Havia cheiro de mulher nova na casa
Riscos de giz no chão e escrituras na parede
Havia um mistério novo, sem dúvida
Algo além dos livros, dos bilhetes cifrados
Além da cozinha com hálito de café frio

Ele percebia: o sono é promessa de esquecimento
A única coisa a fazer é abrir todas as janelas
Todas as portas, consertar o telhado, cortar a grama
Imaginar: as fortalezas são maquetes de Sol
Nenhum brilho pode ser admirado sem ser confrontado

Ela era batalha
Guerra, trincheira, arame farpado
Seriam os sentimentos, muros: portões!
As convicções, medos: territórios!
A espera sempre foi um relógio atrasado em pulsos de gigantes.

Absorve a fragrância que o mar devolve.
Hoje.
Agora.

[jb]

domingo, junho 03, 2007

Hebdomática

Olhar
O bom do desejo é seus arredores.

Pensar
Cruzou a rua e fugiu do destino. Errou.

Agir
Seria inconveniente esconder os braços.

Tocar
Um simples carinho amassa algo mais do que a roupa.

Beijar
De que colisão estamos falando?

Sentir
Não chovia. Um vapor subia da terra e regava as plantas.

Continuar
Não presta olhar diretamente para o Sol.

[jb]
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