segunda-feira, maio 31, 2010

Traços de uma manhã simples

O sol cortado
A janela cega
O telhado em suor
A grama em bocejo
A cozinha sem cheiro
O pássaro mudo
O parque chamando crianças para brincar

Na cama, dorme o velho
Na xícara, resto de café de ontem
Na parede, o mesmo calendário de gatos de 2008
Na geladeira, imãs prendem lembretes da semana passada
No armário, biscoitos doces amolecidos
No portão, o jornal do dia

A casa cheia de rugas se entardece
O dia branco e liso se amanhece

Não há quem note a grama
Ou o pássaro
Ou o parque
Ou o telhado
Ou o café
Ou os biscoitos
Ou o velho

Ninguém se lembra de manhãs
Ou rugas
Todos se lembram do meio-dia
É quando bate a fome
É quando o velho quer comer

terça-feira, maio 18, 2010

Infante maré

precisas andar, caro menino

teu tesouro está guardado entre árvores centenárias
longe das pedras pequenas, perto de sombras tranquilas

busque além das moradas e dos prédios movimentados
os carros velozes não te servirão; vá à pé

siga na hora branca das manhãs, antes dos bocejos do mundo
no clarecer verás a beleza de tua jornada

teus passos virgens caminhem por virgens paragens
despreze as trilhas marcadas por pés vadios

teu caminho seja só teu
tua distância seja do tamanho do teu querer

quando chegar às folhas secas, sorria
também há outono no litoral

precisas andar, caro menino
navegar no teu barco colorido de dias

vai: que o mar não tem esquinas
vai: se chover na água, serás elevado
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