Meu poema é paz, é pólvora, é fonema
Meu poema é praga, é prece, novena
Meu poema risca, faísca, acena
Meu poema perdoa, padece, ordena
Meu poema é prosa, coisa pequena
Parece peteca, palavra de pena
Meu poema é câncer, doença, gangrena
Meu poema é parte, é pouco, centena
Meu poema é pó, prisão, quarentena
Parede de pedra, pirão, maisena
Meu poema é porco, é pato, é hiena
Meu poema prende, prova e condena
Meu poema dorme, acorda, serena
Meu poema pifa, para e engrena
Meu poema é onda, é raio, é antena
Meu poema é pântano, piso, arena
Meu poema é dia, é mês, é quinzena
Meu poema é porto, ponte, safena
Meu poema cura, mata, envenena
Meu poema é puro, é puta obscena
Meu poema não é meu poema
Meu poema é pássaro em cantilena
Meu poema não é problema meu
Meu poema é dilema de quem leu
Meu poema não é poema meu
Meu poema, escrito, morreu
Meu poema, morto, é maior
Meu poema, eu, réu-mor
Domingo, Fevereiro 07, 2010
Sábado, Fevereiro 06, 2010
Meditação
"Há sempre, por mais difuso e frágil, por mais inapercebido, algo que nos provoca, nos instiga, um som, uma imagem, uma palavra entreouvida, uma frase, uma flor, um perfume, um sopro invisível impalpável imponderável que me leva a retomar a luta que acreditava perdida."
Salim Miguel, in: Confissões Prematuras
Sábado, Janeiro 30, 2010
Poetas no Singular
Os caminhos da poesia fizeram uma nova encruzilhada onde se encontram os singulares poetas catarinas Antonio Carlos Floriano, Cristiano Moreira, Dennis Radünz, Rubens da Cunha, Raquel Stolf, Marco Vasques, Marcelo Steil, Valdemir Klamt, Ryana Gabech, Fernando José Karl e seus textos já sabidamente fodas. O convite é para você se achegar por lá, sentar-se à beira da estrada e entrar na conversa.
O ponto de parada é aqui: http://poetasnosingular.blogspot.com
ou aqui: http://www.poetasnosingular.com.br
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Sexta-feira, Janeiro 22, 2010
Litoral
Se ela fechar os olhos
Verá o revoar dos pássaros antes de sua caminhada clandestina na praia
Ouvirá o som do mar explodindo o sono da manhã domingueira
Sentirá a areia entre os dedos e os pés marcando na orla seu rastro feminino
Respirará o cheiro marinheiro do vento a encher de gaivotas seus pulmões
Lembrará do gosto de sol beliscando sua pele rosada e doce
Pensará nas segundas-feiras com um rochedo que grita pelo bater das ondas
E nas sextas-feiras como um oceano gentil pronto a receber os jangadeiros
Mas seus olhos abertos são quentes de fogo
Dois pés descalços sobre o asfalto fervente
Tochas vermelhas famintas pelas trevas
Brasas faiscantes cuspidas por trovões
Ela não dorme nem descansa: é incêndio sempre
Deixou a luz entrar nos olhos como se recebe um vendedor de espelhos no portão
Vive de imagens, reflexos, cortes, explosões e pimenta na comida
Não sabe mais o que é uma nuvem, uma palavra, um copo de água
O olhar é vigilante insone na agenda de horas marcadas
Se eu chegasse de repente e cobrisse teus olhos com as mãos
Adivinharia quem sou?
Lembraria de um perfume antigo?
Reconheceria meu toque desalinhado de criança insegura?
Sentiria saudades das sombras avessas sob a soleira de manhãs simples?
Ou queimaria meus dedos já castigados pelo sal?
Ou mutilaria minhas mãos nas quais tenho o mapa de tuas profundidades?
Ou se esquivaria a modo de quem foge de um selvagem ou de um turista perdido?
Não
Ela é sempre atenta: farol, faísca e furor
Sentiria de longe os respingos de minha sombra fácil
Ceguei meus olhos para não vê-la assim
Ao estender o lençol da escuridão a vejo como antes
Menina de riso
Mulher de alma
Vício de verão
Ela soube. Ela chorou minha cegueira.
Chorou sem fechar os olhos.
Verá o revoar dos pássaros antes de sua caminhada clandestina na praia
Ouvirá o som do mar explodindo o sono da manhã domingueira
Sentirá a areia entre os dedos e os pés marcando na orla seu rastro feminino
Respirará o cheiro marinheiro do vento a encher de gaivotas seus pulmões
Lembrará do gosto de sol beliscando sua pele rosada e doce
Pensará nas segundas-feiras com um rochedo que grita pelo bater das ondas
E nas sextas-feiras como um oceano gentil pronto a receber os jangadeiros
Mas seus olhos abertos são quentes de fogo
Dois pés descalços sobre o asfalto fervente
Tochas vermelhas famintas pelas trevas
Brasas faiscantes cuspidas por trovões
Ela não dorme nem descansa: é incêndio sempre
Deixou a luz entrar nos olhos como se recebe um vendedor de espelhos no portão
Vive de imagens, reflexos, cortes, explosões e pimenta na comida
Não sabe mais o que é uma nuvem, uma palavra, um copo de água
O olhar é vigilante insone na agenda de horas marcadas
Se eu chegasse de repente e cobrisse teus olhos com as mãos
Adivinharia quem sou?
Lembraria de um perfume antigo?
Reconheceria meu toque desalinhado de criança insegura?
Sentiria saudades das sombras avessas sob a soleira de manhãs simples?
Ou queimaria meus dedos já castigados pelo sal?
Ou mutilaria minhas mãos nas quais tenho o mapa de tuas profundidades?
Ou se esquivaria a modo de quem foge de um selvagem ou de um turista perdido?
Não
Ela é sempre atenta: farol, faísca e furor
Sentiria de longe os respingos de minha sombra fácil
Ceguei meus olhos para não vê-la assim
Ao estender o lençol da escuridão a vejo como antes
Menina de riso
Mulher de alma
Vício de verão
Ela soube. Ela chorou minha cegueira.
Chorou sem fechar os olhos.
Sexta-feira, Janeiro 01, 2010
O dia binário
Hoje é um dia sem meio termo. Hoje impera a exatidão da matemática. A frieza da razão. O abraço dos extremos. A morte dos atravessadores. Hoje o dia é sim ou não, sem talvez ou depende. Hoje o dia grita ou cala, explode ou encolhe, voa ou rasteja. Não tem meio termo. Hoje é um dia inédito que nunca mais será repetido. A vida hoje exige ser inteira. Não faz concessões. Não há opções. No abismo entre 0 e 1 repousa qualquer possibilidade de existir. Pule, atravesse, mergulhe. Ou pare e espere o apocalipse do infinito amanhã. Hoje é dia de decisão.
Hoje Bhaskara, Euclides, Newton, Pitágoras, Pascal, Talles de Mileto e outros comparsas se reúnem na tua mesa. Olham no teu olho. Bebem do teu café. E decidem teu futuro. Hoje eles te colocam num dilema. E o dilema é uma ponte. E o dilema é uma corda. E o dilema é uma atitude. E não admite ser um não-dilema. Hoje os números de gelo te forçam à vida. Te colocam numa encruzilhada de uma rua só. Não é sempre que se tem escolhas. Duas escolhas, para ser exato, neste dia. Duas pontas, duas saídas, dois lados. A porta ou a janela. Direita ou esquerda. Acima ou abaixo. Hoje reina os inteiros. Mataram as metades do comodismo. Hoje não tem equilíbrio. Hoje é dia radical.
Hoje o bispo engasga com maniqueísmos. Relembra o céu e o inferno. Crucifica a miséria e aplaude a riqueza. É tudo ou nada para você. Deus ou diabo na terra do sol. Ou dá ou desce. Para o bem ou para o mal. Sem misericórdias. Hoje é um dia sem perdão. Hoje jogam pedras nas prostitutas. Hoje ninguém lava as mãos. É dia de matar ou morrer. De comprar ou vender. De parar ou seguir. É um dia de pedra, de cruz e de espada. Dia de dois gumes. Tempo de fogo e purificação. O encontro do abutre com a andorinha, da hiena com o cordeiro, do lobo com o cão. Hoje é dia de confronto. De guerra particular. Um medo e uma coragem na mesma sala, no mesmo sofá, lado a lado. Hoje é dia da verdade. O beijo de língua. Ou o escarro no rosto.
O hoje estupra tuas desculpas. Desnuda tua indiferença de cortina florida. É dia que carrega nas mãos uma tenaz contra teu peito aberto. E marca na pele branca o desenho quente do medo e da tortura. Não há escape. O hoje é ordinário e metódico. Exige alma cartesiana. Concentração e cálculo. E paciência de prisioneiro. Hoje não tem plano B. É dia certeiro. Hoje são descobertas todas as armadilhas. Os muros caem, o véu se rasga, tudo é posto à prova. Não há caminho alternativo. Hoje, dia 01/01/10, é dia binário. Bomba-relógio digital. Conta o tempo até a próxima aurora. Ou até o próximo enterro. O hoje anseia ser decifrado. É dia egoísta, filho único do calendário. Ele não dá regalias. Apenas dois pães secos. Dois números solitários.
0 e 1, 1 e 0. Eis teu brinquedo. Teu Lego de duas peças. Tua faca e teu queijo. Teu quebra-cabeça macabro. Faça as combinações. Ache a senha, o código, a passagem secreta. Não se distraia. Siga as regras. Livre-se das emoções, enquanto os outros fazem as apostas. Cara ou coroa? E nenhum outro dia será tão exato quanto hoje.
Hoje Bhaskara, Euclides, Newton, Pitágoras, Pascal, Talles de Mileto e outros comparsas se reúnem na tua mesa. Olham no teu olho. Bebem do teu café. E decidem teu futuro. Hoje eles te colocam num dilema. E o dilema é uma ponte. E o dilema é uma corda. E o dilema é uma atitude. E não admite ser um não-dilema. Hoje os números de gelo te forçam à vida. Te colocam numa encruzilhada de uma rua só. Não é sempre que se tem escolhas. Duas escolhas, para ser exato, neste dia. Duas pontas, duas saídas, dois lados. A porta ou a janela. Direita ou esquerda. Acima ou abaixo. Hoje reina os inteiros. Mataram as metades do comodismo. Hoje não tem equilíbrio. Hoje é dia radical.
Hoje o bispo engasga com maniqueísmos. Relembra o céu e o inferno. Crucifica a miséria e aplaude a riqueza. É tudo ou nada para você. Deus ou diabo na terra do sol. Ou dá ou desce. Para o bem ou para o mal. Sem misericórdias. Hoje é um dia sem perdão. Hoje jogam pedras nas prostitutas. Hoje ninguém lava as mãos. É dia de matar ou morrer. De comprar ou vender. De parar ou seguir. É um dia de pedra, de cruz e de espada. Dia de dois gumes. Tempo de fogo e purificação. O encontro do abutre com a andorinha, da hiena com o cordeiro, do lobo com o cão. Hoje é dia de confronto. De guerra particular. Um medo e uma coragem na mesma sala, no mesmo sofá, lado a lado. Hoje é dia da verdade. O beijo de língua. Ou o escarro no rosto.
O hoje estupra tuas desculpas. Desnuda tua indiferença de cortina florida. É dia que carrega nas mãos uma tenaz contra teu peito aberto. E marca na pele branca o desenho quente do medo e da tortura. Não há escape. O hoje é ordinário e metódico. Exige alma cartesiana. Concentração e cálculo. E paciência de prisioneiro. Hoje não tem plano B. É dia certeiro. Hoje são descobertas todas as armadilhas. Os muros caem, o véu se rasga, tudo é posto à prova. Não há caminho alternativo. Hoje, dia 01/01/10, é dia binário. Bomba-relógio digital. Conta o tempo até a próxima aurora. Ou até o próximo enterro. O hoje anseia ser decifrado. É dia egoísta, filho único do calendário. Ele não dá regalias. Apenas dois pães secos. Dois números solitários.
0 e 1, 1 e 0. Eis teu brinquedo. Teu Lego de duas peças. Tua faca e teu queijo. Teu quebra-cabeça macabro. Faça as combinações. Ache a senha, o código, a passagem secreta. Não se distraia. Siga as regras. Livre-se das emoções, enquanto os outros fazem as apostas. Cara ou coroa? E nenhum outro dia será tão exato quanto hoje.
Sexta-feira, Dezembro 18, 2009
Apocalipse de João
Cesto vazio ao fim da jornada
João lança a rede à esmo
Puxa
Vem seis apocalipses num lance só
Tenta de novo
E de novo
Trinta e três no total
João nunca viu daquilo
Teria um fim-do-mundo para cada dia do mês
E ainda sobrariam três
Venderia na banca por bom preço
Três apocalipses embrulhados em jornal
Só hoje:
João lança a rede à esmo
Puxa
Vem seis apocalipses num lance só
Tenta de novo
E de novo
Trinta e três no total
João nunca viu daquilo
Teria um fim-do-mundo para cada dia do mês
E ainda sobrariam três
Venderia na banca por bom preço
Três apocalipses embrulhados em jornal
Só hoje:
Quarta-feira, Dezembro 09, 2009
Entenda o mundo
DA TEMPERATURA DA ÁGUA LÍQUIDA
O aquecido debate sobre a questão do aquecimento global e, por conseguinte, da continuidade das condições naturais de convivência e sobrevivência no homem na Terra, está travestido pela cortina da discussão pública e política em âmbito planetário. No degelo de simpósios, conferências, congressos, fóruns e encontros afins, o que se mostra à superfície é um interesse menos politicamente correto, e mais esquivo e corrosivo. Sob a lâmina da contextualização e da análise sistemática, a discussão é, sem dúvida, econômica. Um jogo entre esferas financeiras, mercados consumidores, ativos de precificação, nações emergentes e sistemas nacionais de alcance mundial. Marginalizando os interesses obtusos, especialistas também criticam a esteticalização e a fetichização do debate, cenário que tornou qualquer audiência sobre o tema um imbróglio de informações desencontradas e precárias, mas vendida pela mídia como oportunidade única de encaminhamento de soluções. Na esteira dos sucessivos debates, protocolos, requerimentos, documentos, pedidos, propostas, cartas abertas, moções e outros papéis da burocracia discursiva não traduzem políticas práticas de ações efetivas. Há uma dicotomização do problema, entre países abastados e nações miseráveis. As falas são, portanto, conflitantes. Não há o diálogo puro e lúcido. E nem todos os atores sociais estão envolvidos. O argumento longe da perniciosa intenção econômica poderia deixar sem mácula os indicativos de observância e aplicabilidade das propostas apresentadas. Falta uma vontade supranacional para encontrar o caminho a trilhar. Intermitentemente, cada pisada é dada em solo estranho e qualquer avanço definitivo é desacreditado pelo ecossistema humano. Por enquanto, o certo é que árvores continuam sendo derrubadas para virarem protocolos autografados por lideranças de pensamento curto e raso. O urso polar, por sua vez, já não se confunde mais com o branco da neve. Não há branco, nem gelo. Daqui a pouco, nem urso. Sobra papel.
Terça-feira, Dezembro 08, 2009
Saldo
Ônibus chegam à ilha
Náufragos cansados esperam a fuga
Eles sempre retornam no outro dia
O cartão de passagens dá para o mês inteiro
Náufragos cansados esperam a fuga
Eles sempre retornam no outro dia
O cartão de passagens dá para o mês inteiro
Quarta-feira, Novembro 18, 2009
Incendiário
Escrevo após incêndios
Quando tudo é desmanche e brasa morta
Quando palavras em cacos, pedaços, carvão
Anseiam respirar fora dos escombros
De ruínas ergo varandas e sacadas
De muros caídos levanto palácios
De mansões fumegantes faço jardins
De ruas esburacadas pavimento pisos decorados
Em versos e estrofes reconstruo a cidade
Casas sucumbidas ao fogo voltam a aquecer
Fábricas apagadas retomam seus barulhos
Esquinas de cinzas espalham cruzamentos
Não me prosto ao caos e ao desespero
Não me prosto à bomba e ao meteoro
Não me prosto ao trovão e à enchente
Não me prosto ao assassino e à fuga
Permaneço e me elevo
Subo a escada que construi
Chamo os habitantes às moradas
Antes mortos, agora vivos, natos
Escrever é obra de ressurreição
Empreitada de três dias (ou nem isso)
Ascendo ao céu quando tudo pronto
Então deito e descanso e amanheço
Me carrego de substantivos e vírgulas
Até que alguém grite verbo inédito
No quinto andar de um prédio em chamas
Espero o desabamento e vou
Levo pás e tratores
Numa caixa, livros e discos
A letra é manifesto quando sufocada
A canção é linda quando reverbera no pó
Quando tudo é desmanche e brasa morta
Quando palavras em cacos, pedaços, carvão
Anseiam respirar fora dos escombros
De ruínas ergo varandas e sacadas
De muros caídos levanto palácios
De mansões fumegantes faço jardins
De ruas esburacadas pavimento pisos decorados
Em versos e estrofes reconstruo a cidade
Casas sucumbidas ao fogo voltam a aquecer
Fábricas apagadas retomam seus barulhos
Esquinas de cinzas espalham cruzamentos
Não me prosto ao caos e ao desespero
Não me prosto à bomba e ao meteoro
Não me prosto ao trovão e à enchente
Não me prosto ao assassino e à fuga
Permaneço e me elevo
Subo a escada que construi
Chamo os habitantes às moradas
Antes mortos, agora vivos, natos
Escrever é obra de ressurreição
Empreitada de três dias (ou nem isso)
Ascendo ao céu quando tudo pronto
Então deito e descanso e amanheço
Me carrego de substantivos e vírgulas
Até que alguém grite verbo inédito
No quinto andar de um prédio em chamas
Espero o desabamento e vou
Levo pás e tratores
Numa caixa, livros e discos
A letra é manifesto quando sufocada
A canção é linda quando reverbera no pó
Terça-feira, Outubro 27, 2009
Oca sombra
Entre tua pele meridional e meus olhos de acrílico
Há um brilho boreal de manhã fria e branca
Há uma luz que semeia sorrisos em campos de neve
Há uma névoa acorrentando duas respirações
Eu vim de longe
Carrego na sola mapas de descobrimentos
Na palma das mãos, anagramas de vontades
O pó, o asfalto e a lama testemunham a jornada
Uma palmeira alta, um gato pardo e uma menina azul
Ouviram minhas composições
Hoje, dia plagiado de ontem
(num deslize criativo do Criador)
Neste vale de montanhas infinitas
Encontro teu olhar de galáxia
Vejo teu cabelo de cores vespertinas
Orbito teus desenhos de noite aberta
Eu, seco e lento
Eu, tolo e espinho
Eu, caminho estreito
Eu, miopia e fraqueza
Eu, amarras e cercas
Eu, pedra, cisco e gelo
Me penumbro
Me vazio
Me mudo
Analfabeto
Entre tua pele e meus olhos
Entre tua boca e minha música
Oca sombra muralha o renascimento do mundo
Você ainda me atravessa
Levo na garganta as iluminuras da tua palavra
Por isso falo xadrez e escrevo branco
Me revelo em respingos no abrir da tua varanda
Mas sou muito desabrigo para morar na tua casa
Há um brilho boreal de manhã fria e branca
Há uma luz que semeia sorrisos em campos de neve
Há uma névoa acorrentando duas respirações
Eu vim de longe
Carrego na sola mapas de descobrimentos
Na palma das mãos, anagramas de vontades
O pó, o asfalto e a lama testemunham a jornada
Uma palmeira alta, um gato pardo e uma menina azul
Ouviram minhas composições
Hoje, dia plagiado de ontem
(num deslize criativo do Criador)
Neste vale de montanhas infinitas
Encontro teu olhar de galáxia
Vejo teu cabelo de cores vespertinas
Orbito teus desenhos de noite aberta
Eu, seco e lento
Eu, tolo e espinho
Eu, caminho estreito
Eu, miopia e fraqueza
Eu, amarras e cercas
Eu, pedra, cisco e gelo
Me penumbro
Me vazio
Me mudo
Analfabeto
Entre tua pele e meus olhos
Entre tua boca e minha música
Oca sombra muralha o renascimento do mundo
Você ainda me atravessa
Levo na garganta as iluminuras da tua palavra
Por isso falo xadrez e escrevo branco
Me revelo em respingos no abrir da tua varanda
Mas sou muito desabrigo para morar na tua casa
Terça-feira, Outubro 20, 2009
Deus também tem quatro letras
O medo é quadrado: forma de sombra
Arranca ângulos de tempestades
Traz noite e ânsia
O medo é quarto: túmulo aceso
Respira o odor fóssil do antes
Gargareja mofo e angústia
O medo é quadro: adorno na alma-de-estar
Visita a infância de correrias e sol
A perna sem cálcio não pisa mais o chão
O medo é quarteto sombrio:
Morte, culpa, fraqueza, covardia
Toca instrumentos de sopro
Crava espinhos roucos na plateia
O medo é quatro: usurpador da trindade
Número de voo em abismo
Múltiplo de cadáveres na segunda
O medo é quadra: geometria de assassinos
Espreita nas esquinas os preocupados
Faz muros bloqueando fugas
Eis o medo:
Fogo frio
Água negra
Estátua de vento
Poeira dos cantos
Eis o medo:
Hipotenusa dos fracos
Eis nosso inimigo, meu amor
Arranca ângulos de tempestades
Traz noite e ânsia
O medo é quarto: túmulo aceso
Respira o odor fóssil do antes
Gargareja mofo e angústia
O medo é quadro: adorno na alma-de-estar
Visita a infância de correrias e sol
A perna sem cálcio não pisa mais o chão
O medo é quarteto sombrio:
Morte, culpa, fraqueza, covardia
Toca instrumentos de sopro
Crava espinhos roucos na plateia
O medo é quatro: usurpador da trindade
Número de voo em abismo
Múltiplo de cadáveres na segunda
O medo é quadra: geometria de assassinos
Espreita nas esquinas os preocupados
Faz muros bloqueando fugas
Eis o medo:
Fogo frio
Água negra
Estátua de vento
Poeira dos cantos
Eis o medo:
Hipotenusa dos fracos
Eis nosso inimigo, meu amor
Terça-feira, Outubro 06, 2009
Rã cor
O preso preto
amarga amarras marrons
por dois azares azuis
Ele, verme vermelho
amara amarelo
deixou ela de rosto roxo
A puta púrpura
bradou brancos femininos
Mulher de verdes verdades
abriu porta de lilás liberdade
gritando desgraçados degradês
Enquanto arranha paredes
em cinza cinzas
Na feira ela compra
laranjas (bem) alaranjadas
amarga amarras marrons
por dois azares azuis
Ele, verme vermelho
amara amarelo
deixou ela de rosto roxo
A puta púrpura
bradou brancos femininos
Mulher de verdes verdades
abriu porta de lilás liberdade
gritando desgraçados degradês
Enquanto arranha paredes
em cinza cinzas
Na feira ela compra
laranjas (bem) alaranjadas
Quarta-feira, Setembro 30, 2009
Corredor
Vivia na cidade grande com coisas quentes na cabeça. Não sabia o que era tranquilidade ou outra espécie de coisas pequenas. Acostumou-se ao mundo gigantesco. Viadutos, rodovias, pontes, prédios, relatórios e soberbas. E ela também era assim. Igual ao ambiente. Talvez um pouco menor por dentro. Mas as coisas sempre aparentam ser maiores do que pensamos, mesmo quando o pensamento já seja enorme. Somos expansivos. Somos sem fim. Principalmente quando se vive numa cidade feita de prazos e rotinas. Rotinas lancinantes. Ruas imersas em infinitos.
Toda vez que saía do escritório, ao fim da tarde, passava na ótica para ver modelos de óculos. Cada dia era um diferente. Tinha interesse, na verdade, pelo guardador de veículos ao lado. Rapaz normal que veste sempre uma camisa verde. A cidade não permite muitos contatos. A vida é pequena, nesse sentido. Tudo pode girar ou ser grande, mas no campo dos relacionamentos há uma pequenez de corredor. Há um terror que assola todo dia. Nervuras de dias inteiros de sol e pedidos. Quando chega fim de semana, chove castigando.
Havia displicência com o futuro, com a preocupação comum de sobrevivência e respeito. O que queria era pequeno. Teria de se mudar. De cidade, de profissão, de planos. Depois de dois meses chovendo nos finais de semana, decidiu que no próximo domingo-sol visitaria o lugar indicado no catálogo turístico.
Toda vez que saía do escritório, ao fim da tarde, passava na ótica para ver modelos de óculos. Cada dia era um diferente. Tinha interesse, na verdade, pelo guardador de veículos ao lado. Rapaz normal que veste sempre uma camisa verde. A cidade não permite muitos contatos. A vida é pequena, nesse sentido. Tudo pode girar ou ser grande, mas no campo dos relacionamentos há uma pequenez de corredor. Há um terror que assola todo dia. Nervuras de dias inteiros de sol e pedidos. Quando chega fim de semana, chove castigando.
Havia displicência com o futuro, com a preocupação comum de sobrevivência e respeito. O que queria era pequeno. Teria de se mudar. De cidade, de profissão, de planos. Depois de dois meses chovendo nos finais de semana, decidiu que no próximo domingo-sol visitaria o lugar indicado no catálogo turístico.
Quinta-feira, Setembro 24, 2009
Tarrafa
Viera de cidade mais pequena. Ele, filho único de sexo masculino numa família açoriana. Homem miúdo. Alma tranquila. Mente só para o trabalho. Desde os sete trabalhava no mercadinho da rua central. Ajudava os pais pesqueiros. Pensava em ser médico. As irmãs, duas irmãs mais velhas, uma dois e outra três anos a mais que ele, eram atendentes na loja de armarinhos. Nos fins de semana, costuravam roupinhas de bebê. Pensavam, as duas, em casar logo.
A vida não era fácil, todos sabem. Nunca foi para ninguém. Nascer homem é sempre melhor num mundo desses. Ele se lembra de uma conversa entre o pai e a mãe quando tinha lá seus dez anos.
– Ainda bem que temos ele. Já imaginou três mulheres em casa! Seria muita incomodação.
– Mas ele com esses sonhos de médico ainda vai dar trabalho. Sei lá. Ainda é cedo. Talvez mude de ideia. Algo próximo da gente. Menos barqueiro.
– Não sei. Ele sempre fala nisso. Desde que viu aquela revista. Até pediu a revista para o homem. Está lá guardada na gaveta.
– E a Gabriela sempre chegando depois do horário. Ah, menina...
Estava chegando da escola, quando pescou o diálogo. Levava jeito.
A vida não era fácil, todos sabem. Nunca foi para ninguém. Nascer homem é sempre melhor num mundo desses. Ele se lembra de uma conversa entre o pai e a mãe quando tinha lá seus dez anos.
– Ainda bem que temos ele. Já imaginou três mulheres em casa! Seria muita incomodação.
– Mas ele com esses sonhos de médico ainda vai dar trabalho. Sei lá. Ainda é cedo. Talvez mude de ideia. Algo próximo da gente. Menos barqueiro.
– Não sei. Ele sempre fala nisso. Desde que viu aquela revista. Até pediu a revista para o homem. Está lá guardada na gaveta.
– E a Gabriela sempre chegando depois do horário. Ah, menina...
Estava chegando da escola, quando pescou o diálogo. Levava jeito.
Quinta-feira, Setembro 03, 2009
Onze palavras
Ele sobe a escada como se turista fosse. Em cada degrau para e observa. A lagoa com frio, a montanha sonolenta, uns guris ao longe jogando bola. Abaixo, pessoas se apinhando ao pé da torre.
Era um domingo. Bom dia para terminar coisas atrasadas. Beto chegou cedo, quando ainda não havia ninguém no parque. Esperaria até o meio dia. Daria tempo aos jornalistas para fazerem a matéria completa amanhã. Beto conversou com várias pessoas. Até com crianças. Não tinha muito jeito com elas. Falava bem mesmo era com as mulheres.
Ele era da própria cidade. Nunca fora no parque, no entanto. Sentia-se como estrangeiro. Era o único ali sem máquina fotográfica. A torre até que não era alta. Um pouco mais que cinquenta degraus metálicos. Do alto do penúltimo degrau, quando já era possível ver a rodovia que risca a serra do mar, ele percebeu em sua curiosidade rara um homem conversando ao ouvido com uma mulher. Namoro na torre?
Era o dia de Beto. Domingo. E ele não iria embora sozinho. Pensou numa criança que pulava sobre a plataforma o tempo todo. Incomodava. Mas quando viu a mulherzinha, não teve dúvidas. Era ela. Beto se aproximou. Falou palavras. Onze. Baixinho.
A curiosidade de turista o chamava para o outro lado. O da praia. Um passo acima e poderia contemplar a cidade com olhos panorâmicos. Já na plataforma, ele pode ver que a rodovia na montanha é como uma cachoeira listrada. Daria bom quadro para um pintor medíocre. Lembrou-se do homem e da mulher. Olhou. Haviam descido. Sem passar por ele.
Os jornais deram a notícia com riqueza de detalhes na segunda. Beto saiu na capa. Ela não, só o nome. E a transcrição de um bilhete com palavras. Onze.
Ele demorou lá em cima. Nem percebeu o alvoroço lá em baixo. Ficara deslumbrado ao ver a cidade de um modo nunca visto. Ele morava ali havia 35 anos. Quando desceu já passava do meio dia. O parque estava tranquilo. Famílias faziam piquenique nos gramados. Foi uma tarde feliz. Coisa que não sai no jornal. Pena que ele não é de se interessar pelo que acontece na cidade. Não lê jornal.
Era um domingo. Bom dia para terminar coisas atrasadas. Beto chegou cedo, quando ainda não havia ninguém no parque. Esperaria até o meio dia. Daria tempo aos jornalistas para fazerem a matéria completa amanhã. Beto conversou com várias pessoas. Até com crianças. Não tinha muito jeito com elas. Falava bem mesmo era com as mulheres.
Ele era da própria cidade. Nunca fora no parque, no entanto. Sentia-se como estrangeiro. Era o único ali sem máquina fotográfica. A torre até que não era alta. Um pouco mais que cinquenta degraus metálicos. Do alto do penúltimo degrau, quando já era possível ver a rodovia que risca a serra do mar, ele percebeu em sua curiosidade rara um homem conversando ao ouvido com uma mulher. Namoro na torre?
Era o dia de Beto. Domingo. E ele não iria embora sozinho. Pensou numa criança que pulava sobre a plataforma o tempo todo. Incomodava. Mas quando viu a mulherzinha, não teve dúvidas. Era ela. Beto se aproximou. Falou palavras. Onze. Baixinho.
A curiosidade de turista o chamava para o outro lado. O da praia. Um passo acima e poderia contemplar a cidade com olhos panorâmicos. Já na plataforma, ele pode ver que a rodovia na montanha é como uma cachoeira listrada. Daria bom quadro para um pintor medíocre. Lembrou-se do homem e da mulher. Olhou. Haviam descido. Sem passar por ele.
Os jornais deram a notícia com riqueza de detalhes na segunda. Beto saiu na capa. Ela não, só o nome. E a transcrição de um bilhete com palavras. Onze.
Ele demorou lá em cima. Nem percebeu o alvoroço lá em baixo. Ficara deslumbrado ao ver a cidade de um modo nunca visto. Ele morava ali havia 35 anos. Quando desceu já passava do meio dia. O parque estava tranquilo. Famílias faziam piquenique nos gramados. Foi uma tarde feliz. Coisa que não sai no jornal. Pena que ele não é de se interessar pelo que acontece na cidade. Não lê jornal.
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