quinta-feira, maio 29, 2014

Desmaio


Eu sou maio
Meio que quase
Todos os meses

Antes da metade
Do calendário
Foi-se meia vida

Meu tempo
É parte inteira
Do que mal consigo contar
Numa das mãos

terça-feira, maio 20, 2014

Metades


Depois das 13h57, minha alma terá dias e noites iguais
Iguais
no tempo
na angústia do sol
no enigma da lua
na intensidade da noite

Verei minhas metades inteiras
Plenas
no fenômeno da incompletude
na inteireza da ausência
no vazio necessário

Saberei do cair das folhas secas
Sepultando
minuto a minuto
as horas dos dias que me restam
as estações dos anos que me faltam

O outono é aviso
pai dos corações desabrigados
mãe das almas inquietas
soberano senhor das igualdades
realçando o frágil de nossas correntes

segunda-feira, abril 21, 2014

Incandescência

a luz
sobre
a mesa

discerne
sombra
e vulto

vomita
o hálito
da noite

por entre
frinchas
de presença

o brilho
morno
da vela

revela
ela

domingo, janeiro 19, 2014

Chamamento


Teu nome não me dorme
Tem a pronúncia da insônia
E o som das horas escuras

Guardo cada sílaba no úmido da língua
Sei de teu apelido de escola
E os diminutivos usados em família

Tua palavra não me foge
É um arpão fisgado na carne
Letra tatuada na pele da memória

Teu nome me grita e me arde
Fosflorescendo no canteiro da noite
É signo raro, verbete de luz

Teu fonema me chega vagalumeando
Eu, sonâmbulo, escuto o vagar das marés
Soletrando rimas contra a pedra da alma

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Mar & cia


a
sombra
se soma
a si

sombras
são
sem som
sem asas
sem chão

assombro
aço
ombro
brasão

obra
abraço
desolação

sol
si
verão

quinta-feira, agosto 29, 2013

Pixel


um ponto
um traço
uma linha
um risco

um caco
um pó
uma fagulha
um cisco

uma vírgula
fonema
exclamação
e grunhido

um pedaço
um nó
uma parte
um resto

um rastro
um gesto
uma faísca
um grito

uma vertigem
fragmento
travessão
e gota

um bit
um próton
uma célula
um átomo

um tom
um som
uma cor
um sopro

uma centelha
partícula
parágrafo
e único

o que bastaria
para ser presença
palavra
princípio
e reticência

sexta-feira, agosto 16, 2013

Equilibrista


Os pés descalços sobre o fio de arame
Tateiam o liso entre as farpas
A pele não dialoga com o metal
Mas sente quando a dor se avizinha

Cada passo, em milímetro, avança
Evita o rasgo da clara derme
E o abrupto grito da língua
E a consequente queda do corpo

Sem as garras de passarinho
Vale-se das asas de homem livre
Preso à rotina de voos curtos
Nas cercanias baixas dos varais

Os mourões dobram-se à travessia
O arame descama ferrugens
Enquanto o olho descuida-se
A dois vãos de caminho

É quando o peso se pende ao chão
E o homem se vê gado que é
Feito de couro, carne e casco
A canga no lombo nega-lhe a fuga 

quarta-feira, julho 03, 2013

Mudez


meu silêncio é 
muro
que mura
que mede e
faz divisão

meu silêncio é
mudo
que muda
que mata e
joga no chão

meu silêncio é
murro
que esmurra
que amarra e
ata as mãos

meu silêncio é
tal qual um
grito ao contrário
desdizendo
desmudando
desmentindo eu

tal qual o
avesso das palavras
desvirando
desfalando
desescrevendo sons

tal qual um
rio que corre veloz
desviando
descaindo
desistindo de si

meu silêncio é
meu
tal qual seu corpo
seu
sal, selo e saliva

meu silêncio é
a nudez da voz
que me cala
a mudez da língua
que me alma

quarta-feira, abril 03, 2013

Confraria do Escritor na Feira do Livro de Joinville 2013


Em seu segundo ano de atuação em Joinville, a Confraria do Escritor retorna à Feira do Livro nesta edição com uma participação mais intensa e expressiva. Em 2012, o grupo que agrega mais de cem escritores locais e regionais estreou no evento com o projeto “Fala de Escritor”, atividade que reunia dois escritores e um mediador por sessão para um contato informal com os leitores a partir de uma temática. Neste ano, além de manter o projeto, a Confraria terá um estande próprio, num espaço para os escritores divulgarem seus livros e promover maior aproximação com o público.

A Confraria do Escritor também será destaque no palco principal da feira, onde integrantes e parceiros do grupo tem lançamentos de livros agendados. São 13 autores mostrando, entre estreias e relançamentos, suas mais recentes produções literárias, da poesia ao romance, passando pelo conto e crônica. No teatro Juarez Machado e no auditório Alcione Araújo a programação com a presença de confrades inclui ainda debates, fóruns e mostras. As atividades da Confraria do Escritor na Feira do Livro 2013 se estendem do dia 04 a 14 de abril. O estande do grupo estará aberto a partir de quinta (04), das 9 às 21h, até o último dia do evento.

A 10ª Feira do Livro de Joinville ocorre de 3 a 14 de abril no Expocentro Edmundo Doubrawa, junto ao Centreventos Cau Hansen. Além de autores locais e regionais, a programação deste ano conta com a participação dos escritores Carlos Liscano, Martín Kohan, Péricles Prade, Roseana Murray, Mônica Buonfiglio, Thalita Rebouças, Léo Cunha, Marina Colasanti, Ignácio Loyola Brandão e Afonso Romano de Sant'anna, entre outros. Confira a programação completa aqui.

segunda-feira, março 04, 2013

Fração


Nem metade do teu amor me prestaria
Nem ao menos metade do teu descaso
Nem ao menos uma parte de tua boca
Ou um dos teus olhos de coisa que rasteja

Nem um caco de teu beijo, vão desprezo
Uma porção de desejo, ira ou outro fogo qualquer
Nem o troco da vingança numa lança de metal
Nem a revanche das palavras, verbo, todo mal

Nem a metade de uma vida inteira
Um pedaço de luz num prato trincado
O resto do jantar esperando tuas fomes
A dois instantes do ponteiro atrasado

Nem o tempo perturbando as horas cheias
Nem metade de teus dias de menina
Uma fração de tua imagem no espelho
Ou mesmo um quase delírio à luz, sina

Nada, seja epifania ou arrebatamento
Seja ordem, desordem ou clarividência
Nem mesmo o teu sangue sem tuas veias
Ou só tua pele em pura fosforescência

Um grito estanque, de voz envelopada
A alma fraturada no osso do abismo
Onde nem mesmo o vento alcança voo
E mesmo o eco se dissipa no caminho

Um pulmão soluça entre as frestas da carne
Enquanto as lâminas de ar afiam a dor veloz
A cada grão que despenca da ampulheta
Estilhaços esmerilham o rosto feito de nós

Nem mesmo o trecho de uma música sem refrão
Ou ao menos o sonoro velejar de oceanos ancestrais
O fôlego que se perde na estrofe dos segundos
Só mesmo no murmúrio de teus lábios verticais

terça-feira, janeiro 01, 2013

Desviu


mio                                   pia
aassttiiggmmaattiissmmoo
fotofo, Bia
vistaacaansaadaa
extra-abismo
(olho) deslágrima (seco)
cat: a rat
c-gueira
Glau, coma!
hiper.metro.pia
con(junti)vite

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Alada


Tuas asas tem a cor da minha sombra
Me assombra o teu voo no escuro

Não me curo do meu medo de voar
Me escondo no opaco do casulo

Me anulo para tecer a tua seda
Vou de vereda ao teu emblema de mulher

Como quem quer um abismo como berço
Me entardeço para te amanhecer

Ser uma sombra na leveza dos teus fios
Desfiar a minha pele nos teus feixes de luz

Elucidar todos os mistérios de fogo
Num ímpeto de carvão virando brasa

O bater de tuas asas faz vento inflame
Tua cor borboleta minha noite
(e apaga meu nome)

quinta-feira, novembro 29, 2012

Quase dezembro


O sol mordisca a pele na tarde morna da primavera
O vento é fraco, mas basta uma nuvem para trazer o temporal
À sombra, estudantes buscam um abrigo invisível na espera pelo ônibus
Os carros, numa ligeireza incômoda, abafam os detalhes da conversa

Na parede da padaria, cartazes anunciam festas e promoções natalinas
Quando a noite chegar, pequenas luzinhas no letreiro farão lembrar do fim do ano
Parece que janeiro foi ontem mas, por uma mágica, ele vai se repetir amanhã
E no janeiro, o sol envenena, o vento rasga, a sombra vibra e os carros param

Enquanto o novembro ainda rasteja, atraindo passarinhos e chuva rápida
A alma desacelera suas ânsias e preocupações; aos poucos, se estende no varal
O corpo, com pouca roupa, se tropicaliza de segundas intenções; deseja (a)mar
Neste quase dezembro, o verão acena com rotas, roteiros e rituais a 23 dias de distância

(Se os maias estiverem certos, morreremos todos na primavera – quase verão
Será inútil a brisa da tarde, a espera pelo ônibus e a pressa dos motores
Os pedidos de Natal não serão atendidos
Ninguém verá o corpo em trajes mínimos
E o janeiro jamais se repetirá)

quinta-feira, outubro 25, 2012

Eu, sapiens


Enquanto eu acho
Um sapo coaxa

Eu, chão
Sapo, lagoa

Eu, erro
Sapo, na mosca

Eu, humpf
Sapo, croac

segunda-feira, outubro 15, 2012

Vendetta


De viés
vesgueia a voz
vertendo virgens voragens

Vivissecam verdades (vãs)
e vomitam vagões (vazios):
ob(viedades)

Um vilão
veleja nas veias
venerando vísceras, vermes, varizes

No vão do ventre
viaja
o vermelho, o vulto, as vertigens

Entre vitrines
(e vidros) vibram vergalhões
                 em veloz ferrugem

É quando a vista vê
vampiros e vespas
verrugas e venenos
en(vasados) embalagens

Só mesmo
um vagabundo (ou um vento de verão)
que vai
        volta
        vaga e
        vacila
para vergar-se a vulcões
                         de voláteis vontades
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