segunda-feira, março 04, 2013

Fração


Nem metade do teu amor me prestaria
Nem ao menos metade do teu descaso
Nem ao menos uma parte de tua boca
Ou um dos teus olhos de coisa que rasteja

Nem um caco de teu beijo, vão desprezo
Uma porção de desejo, ira ou outro fogo qualquer
Nem o troco da vingança numa lança de metal
Nem a revanche das palavras, verbo, todo mal

Nem a metade de uma vida inteira
Um pedaço de luz num prato trincado
O resto do jantar esperando tuas fomes
A dois instantes do ponteiro atrasado

Nem o tempo perturbando as horas cheias
Nem metade de teus dias de menina
Uma fração de tua imagem no espelho
Ou mesmo um quase delírio à luz, sina

Nada, seja epifania ou arrebatamento
Seja ordem, desordem ou clarividência
Nem mesmo o teu sangue sem tuas veias
Ou só tua pele em pura fosforescência

Um grito estanque, de voz envelopada
A alma fraturada no osso do abismo
Onde nem mesmo o vento alcança voo
E mesmo o eco se dissipa no caminho

Um pulmão soluça entre as frestas da carne
Enquanto as lâminas de ar afiam a dor veloz
A cada grão que despenca da ampulheta
Estilhaços esmerilham o rosto feito de nós

Nem mesmo o trecho de uma música sem refrão
Ou ao menos o sonoro velejar de oceanos ancestrais
O fôlego que se perde na estrofe dos segundos
Só mesmo no murmúrio de teus lábios verticais
Google