sexta-feira, dezembro 18, 2009
Apocalipse de João
João lança a rede à esmo
Puxa
Vem seis apocalipses num lance só
Tenta de novo
E de novo
Trinta e três no total
João nunca viu daquilo
Teria um fim-do-mundo para cada dia do mês
E ainda sobrariam três
Venderia na banca por bom preço
Três apocalipses embrulhados em jornal
Só hoje:
quarta-feira, dezembro 09, 2009
Entenda o mundo
terça-feira, dezembro 08, 2009
Saldo
Náufragos cansados esperam a fuga
Eles sempre retornam no outro dia
O cartão de passagens dá para o mês inteiro
quarta-feira, novembro 18, 2009
Incendiário
Quando tudo é desmanche e brasa morta
Quando palavras em cacos, pedaços, carvão
Anseiam respirar fora dos escombros
De ruínas ergo varandas e sacadas
De muros caídos levanto palácios
De mansões fumegantes faço jardins
De ruas esburacadas pavimento pisos decorados
Em versos e estrofes reconstruo a cidade
Casas sucumbidas ao fogo voltam a aquecer
Fábricas apagadas retomam seus barulhos
Esquinas de cinzas espalham cruzamentos
Não me prosto ao caos e ao desespero
Não me prosto à bomba e ao meteoro
Não me prosto ao trovão e à enchente
Não me prosto ao assassino e à fuga
Permaneço e me elevo
Subo a escada que construi
Chamo os habitantes às moradas
Antes mortos, agora vivos, natos
Escrever é obra de ressurreição
Empreitada de três dias (ou nem isso)
Ascendo ao céu quando tudo pronto
Então deito e descanso e amanheço
Me carrego de substantivos e vírgulas
Até que alguém grite verbo inédito
No quinto andar de um prédio em chamas
Espero o desabamento e vou
Levo pás e tratores
Numa caixa, livros e discos
A letra é manifesto quando sufocada
A canção é linda quando reverbera no pó
terça-feira, outubro 27, 2009
Oca sombra
Há um brilho boreal de manhã fria e branca
Há uma luz que semeia sorrisos em campos de neve
Há uma névoa acorrentando duas respirações
Eu vim de longe
Carrego na sola mapas de descobrimentos
Na palma das mãos, anagramas de vontades
O pó, o asfalto e a lama testemunham a jornada
Uma palmeira alta, um gato pardo e uma menina azul
Ouviram minhas composições
Hoje, dia plagiado de ontem
(num deslize criativo do Criador)
Neste vale de montanhas infinitas
Encontro teu olhar de galáxia
Vejo teu cabelo de cores vespertinas
Orbito teus desenhos de noite aberta
Eu, seco e lento
Eu, tolo e espinho
Eu, caminho estreito
Eu, miopia e fraqueza
Eu, amarras e cercas
Eu, pedra, cisco e gelo
Me penumbro
Me vazio
Me mudo
Analfabeto
Entre tua pele e meus olhos
Entre tua boca e minha música
Oca sombra muralha o renascimento do mundo
Você ainda me atravessa
Levo na garganta as iluminuras da tua palavra
Por isso falo xadrez e escrevo branco
Me revelo em respingos no abrir da tua varanda
Mas sou muito desabrigo para morar na tua casa
terça-feira, outubro 20, 2009
Deus também tem quatro letras
Arranca ângulos de tempestades
Traz noite e ânsia
O medo é quarto: túmulo aceso
Respira o odor fóssil do antes
Gargareja mofo e angústia
O medo é quadro: adorno na alma-de-estar
Visita a infância de correrias e sol
A perna sem cálcio não pisa mais o chão
O medo é quarteto sombrio:
Morte, culpa, fraqueza, covardia
Toca instrumentos de sopro
Crava espinhos roucos na plateia
O medo é quatro: usurpador da trindade
Número de voo em abismo
Múltiplo de cadáveres na segunda
O medo é quadra: geometria de assassinos
Espreita nas esquinas os preocupados
Faz muros bloqueando fugas
Eis o medo:
Fogo frio
Água negra
Estátua de vento
Poeira dos cantos
Eis o medo:
Hipotenusa dos fracos
Eis nosso inimigo, meu amor
terça-feira, outubro 06, 2009
Rã cor
amarga amarras marrons
por dois azares azuis
Ele, verme vermelho
amara amarelo
deixou ela de rosto roxo
A puta púrpura
bradou brancos femininos
Mulher de verdes verdades
abriu porta de lilás liberdade
gritando desgraçados degradês
Enquanto arranha paredes
em cinza cinzas
Na feira ela compra
laranjas (bem) alaranjadas
quarta-feira, setembro 30, 2009
Corredor
Toda vez que saía do escritório, ao fim da tarde, passava na ótica para ver modelos de óculos. Cada dia era um diferente. Tinha interesse, na verdade, pelo guardador de veículos ao lado. Rapaz normal que veste sempre uma camisa verde. A cidade não permite muitos contatos. A vida é pequena, nesse sentido. Tudo pode girar ou ser grande, mas no campo dos relacionamentos há uma pequenez de corredor. Há um terror que assola todo dia. Nervuras de dias inteiros de sol e pedidos. Quando chega fim de semana, chove castigando.
Havia displicência com o futuro, com a preocupação comum de sobrevivência e respeito. O que queria era pequeno. Teria de se mudar. De cidade, de profissão, de planos. Depois de dois meses chovendo nos finais de semana, decidiu que no próximo domingo-sol visitaria o lugar indicado no catálogo turístico.
quinta-feira, setembro 24, 2009
Tarrafa
A vida não era fácil, todos sabem. Nunca foi para ninguém. Nascer homem é sempre melhor num mundo desses. Ele se lembra de uma conversa entre o pai e a mãe quando tinha lá seus dez anos.
– Ainda bem que temos ele. Já imaginou três mulheres em casa! Seria muita incomodação.
– Mas ele com esses sonhos de médico ainda vai dar trabalho. Sei lá. Ainda é cedo. Talvez mude de ideia. Algo próximo da gente. Menos barqueiro.
– Não sei. Ele sempre fala nisso. Desde que viu aquela revista. Até pediu a revista para o homem. Está lá guardada na gaveta.
– E a Gabriela sempre chegando depois do horário. Ah, menina...
Estava chegando da escola, quando pescou o diálogo. Levava jeito.
quinta-feira, setembro 03, 2009
Onze palavras
Era um domingo. Bom dia para terminar coisas atrasadas. Beto chegou cedo, quando ainda não havia ninguém no parque. Esperaria até o meio dia. Daria tempo aos jornalistas para fazerem a matéria completa amanhã. Beto conversou com várias pessoas. Até com crianças. Não tinha muito jeito com elas. Falava bem mesmo era com as mulheres.
Ele era da própria cidade. Nunca fora no parque, no entanto. Sentia-se como estrangeiro. Era o único ali sem máquina fotográfica. A torre até que não era alta. Um pouco mais que cinquenta degraus metálicos. Do alto do penúltimo degrau, quando já era possível ver a rodovia que risca a serra do mar, ele percebeu em sua curiosidade rara um homem conversando ao ouvido com uma mulher. Namoro na torre?
Era o dia de Beto. Domingo. E ele não iria embora sozinho. Pensou numa criança que pulava sobre a plataforma o tempo todo. Incomodava. Mas quando viu a mulherzinha, não teve dúvidas. Era ela. Beto se aproximou. Falou palavras. Onze. Baixinho.
A curiosidade de turista o chamava para o outro lado. O da praia. Um passo acima e poderia contemplar a cidade com olhos panorâmicos. Já na plataforma, ele pode ver que a rodovia na montanha é como uma cachoeira listrada. Daria bom quadro para um pintor medíocre. Lembrou-se do homem e da mulher. Olhou. Haviam descido. Sem passar por ele.
Os jornais deram a notícia com riqueza de detalhes na segunda. Beto saiu na capa. Ela não, só o nome. E a transcrição de um bilhete com palavras. Onze.
Ele demorou lá em cima. Nem percebeu o alvoroço lá em baixo. Ficara deslumbrado ao ver a cidade de um modo nunca visto. Ele morava ali havia 35 anos. Quando desceu já passava do meio dia. O parque estava tranquilo. Famílias faziam piquenique nos gramados. Foi uma tarde feliz. Coisa que não sai no jornal. Pena que ele não é de se interessar pelo que acontece na cidade. Não lê jornal.
sexta-feira, agosto 21, 2009
Dias a fio
Chaminé acena fumaça
Casa convida papo de varanda
Jardim estaca foices
Calçada desenha avisos
Cadeira balança senhora em tricôs
Infância atravessa cerca
Carro passa longe
Costume ninguém dormir
sexta-feira, agosto 07, 2009
Urbana Ave
Carentes de edredons e quenturas
No coração cimentado
Busco migalhas pelos cantos
Onde pneus não lambem
Nem pisam sapatos encardidos
Caminho num vagar de trem chegando
Cuidadoso de olhares e passadas
Que dilatam minha calma insustentável
Percebo todos os movimentos
O esbarro, a correria, o pulo, o aceno
Mas só vejo bem coisas paradas
Desconfio sempre das crianças
Elas costumam parar
E, parando, me distraem dos cuidados
Detesto barulho e chuva
Vassouras e pás são meus infernos
Posso voar, devo agradecer
Não entendo essas pessoas amontoadas
Esculturas encharcadas de pressa
Redemoinhos de pó, buscam ventos
Ontem vi uma menina de asas
Hoje já estava de uniforme
Tenho pena
sexta-feira, julho 24, 2009
Rara leveza
A rara leveza da dança é a rara beleza da criança. Da leitura do mundo pelo olhar de vislumbre. Do olhar o mundo com olhos de avião ou de pássaro inquieto. Do voo, da aventura como necessidade. Uma necessidade solta, insignificante, apenas agasalhada pela seda branca do vento. A rara leveza da dança é feita do mesmo peso dos sonhos. Um peso ligeiro, ágil, livre, inconsciente. Uma leveza da mesma que habita a imaginação, os quartos de sol, as janelas abertas, os cabelos loiros da mulher de vestido xadrez e as borboletas de setembro. Uma leveza de balão com velocidade de jato. A rara leveza da dança é quase som. Não raro, um canto feito só de gestos. E tintas. E olhares. Daí pintura: passeio à beira da colina.
Não há medo nos quadrantes da leveza. O compasso das pernas risca semicírculos breves de calma, entrecortados por saltos de espanto e de grito. Não um grito de temor ou de crime. Grito de cachoeira, espanto sublime. A sapatilha da bailarina é escudo na escuridão. Paredes, palco e plateia são florestas de névoa. A luz só ilumina o escudo, só reflete o corpo de espelhos da menina que veste plumas. Não há nada mais a olhar, não há notas de rodapé, não nem mesmo o horizonte. A rara leveza da dança, da dança em versos dos pés da bailarina, só existe em função da altura. A distância vertical entre a sola do escudo tecido em fios com a lona do tablado. A distância entre o piso e o topo desse tablado. A distância dos olhos até o piso. A altura do voo até os olhos. Há uma rara leveza que flutua o olhar. E qual criança não quer ser nuvem colorida? Ou bolha de sabão?
quarta-feira, julho 22, 2009
Hebdomática
Cada resfriado tem a tosse que merece.
Anemia
Têm sangue branco os que promovem a paz? A guerra e o amor são vermelhos.
Diabetes
Evitei tua carne doce. Hoje durmo com árvores.
Faringite
Desde que deixou de falar, anda desdizendo.
Lepra
Os desertos andam lotados ultimamente.
Catapora
Desconheço o que havia a.C. Não achei nada no Google.
Osteoporose
Pai, se o leite é bom para os ossos, porque o queijo suíço é cheio de buracos?
terça-feira, julho 14, 2009
Cinzazul
Tardeatrazer
Ventosopranos
Terramarela
E tantasobrasementes
Raiordinário
Experimentagora
Andaremando
Sobressesoloutrorantigo
Mas aindalvo
E tudo virespasmolfatorelhalmavalanchenzima
Carnestragadartenigma
Olhestefêmeróvulo-mundo
Como correialgemalarmescada-rolante
Tremarimbondoumarapucantesilenciosagorarmada
Vejanela
Ruafora
segunda-feira, junho 29, 2009
Fósforo
40 palitos numa caixa 4x5x1,5cm são as tentativas possíveis.
1 galão de gasolina comum e 2 litros de álcool de cozinha foram depositados ontem à noite atrás do armário onde ela guarda os alimentos.
O texto está com 1,5 parágrafo e já perdi a contagem do número de palavras. Talvez 293. Nas 3 contagens, deu 3 resultados diferentes. Não pode é passar das 400. Será longo e ninguém lerá.
O quarto tem 4x5m. A cozinha tem 7x4m. A sala é quadrada: 5x5m. O banheiro 2x3m. Não tem garagem nem lavanderia. 198 é o número da casa. Coloquei isso no texto. Os jornalistas gostarão desse detalhe.
Ela saiu às 6h22. Tenho só ½ hora.
Vi agora. Ela tirou tudo. Não há cadeiras, nem mesas. A escada fica lá fora, num rancho. Tem 7 degraus. A porta ficou fechada. Não alcanço a caixa com os palitos. Vou planejar melhor para amanhã. Estarei crescido também.
“Efetue as somas abaixo:”
Odeio tarefas da escola. Vou recontar as palavras. Vou assinar com meu nome completo. Quanto estou medindo?
sábado, junho 13, 2009
Ontem
Um amor que não rima, nem beija, nem promete.
Um amor desavisado
Avesso de desejos, encruzilhado numa rua de chão.
Um amor desgrudado da metáfora
Não contido em corações vermelhos atravessados por flechas inflamadas.
Há um amor sem cor e sem som
Um amor pra ser não visto, um amor não-poema, não-música.
Um amor estúpido de sorriso
De boca trêmula, pernas altas.
Um amor de pedra jogada no rio
Apenas um lance na água eterna, sem registro em fotos.
Há um amor sem jeito e sem querer
Um amor de roupa enlameada, descalço, que não caminha à noite
Um amor sem rosto, sem modos à mesa
Devora os dias como gafanhotos em plantação.
Um amor miserável, quase um ódio branco
Quase um desenho de criança, um abismo, uma fazenda sem cerca.
Há esse amor. Sem nome. Sem endereço.
Um andarilho. Porco, mendigo, analfabeto.
Feito de fome, sede e inverno.
Procure nos lugares vazios.
Ermo de gentes.
Está lá. Ontem estava.
[jb]
terça-feira, junho 02, 2009
Entenda o mundo
sexta-feira, maio 22, 2009
Pedinte
Me alimente com as sobras salinas de tuas palavras
Me cubra com céu estrelado de tua pele asfáltica
Deixe uma gota d’água pra mim na tua boca de oásis
Me dê um canto na tua casa iluminada
Me faça mendigo em tuas esquinas sem semáforos
Sou homem sem varandas
Sou apenas construção
[jb]
quarta-feira, maio 06, 2009
Bobo
Te tendo, tudo é resto
Nada é mais
E viveria sem reclamar
Só dos teus restos meridionais
Só
Dos teus restos de cheiro
Dos teus restos de vinho
Dos teus restos de muitos
Dos teus restos sozinhos
Só
Dos teus restos de ciúmes
Dos teus restos de dinheiro
Dos teus restos de pedaços
Dos teus restos inteiros
Só
Dos teus restos de cama
Dos teus restos de jardim
Dos teus restos de paz
Dos teus restos ruins
Só
Dos teus restos de riso
Dos teus restos de fado
Dos teus restos de sol
Dos teus restos molhados
Só
Te tendo, tudo é resto
E mais nada
E viveria sem reclamar
Só dos teus restos de madrugada
Só
Te tendo, tudo é resto
Nada mais é
E viveria sem reclamar
Só dos teus restos de mulher
Só
Te tendo, tudo é resto
E teu resto é prato fundo
Só
Não me deixe comer
Só dos restos do mundo
[jb]
segunda-feira, abril 27, 2009
Escritos enrolados
Desfez o acordo
Desdisse o dito
E desculpou-se
Pela desfeita.
::
cálcio
moço,
o osso
não tem
caroço.
::
Atendimento
Outrora
É uma hora outra
Que não agora
Quem entrou, ri
Quem não, chora
E quem ainda vive
Aguarde lá fora
Por ora era isso
O outro, por favor.
::
[jb]
quarta-feira, abril 15, 2009
Véspera da noite
Corre um vento morno
Tão leve
Tão azul
Não estranho
Quero-quero
João-de-barro
Gaivota
Tudo dormiria sonâmbulo
Sem as aves empenadas de poemas
Tudo respiraria azulejo
Sem as sombras voantes no varal
A estrada estreita só leva
Deixou de trazer
Levou os desenhos
Os carrinhos de madeira
O quebra-cabeças incompleto
Levou todos para trás da montanha
Se alguém viesse
Veria apenas a varanda
Sentiria o vento
Ouviria barulho de asas
Passaria
Se alguém viesse
Seria tudo
Tão estranho
Desazul
[jb]
sexta-feira, abril 10, 2009
sexta-feira, março 27, 2009
Cor(re)lógio
Pés de compasso
E a pressa verde-semáforo
Caminha na faixa
Na direção das 16:30
De roupa branca-médico
Arrastam-se no asfalto
Atrasos de relógios diferentes
Em tom vermelho-comunista
Persegue o horário
Tropeça, cai, levanta: risos
Vê o céu azul-semgraça
Sob o vidro riscado
Ponteiros riscam a hora
O desespero é sem cor, mas amarelo
[jb]
segunda-feira, março 09, 2009
Dois sentidos. Um medo.
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
Entenda o mundo
Viver em grupo demanda uma catarse de sentimentos e habilidades diretamente convencionais a determinada conjuntura de valores. O agente humano, como elemento social ativo, não pode prescindir, na aventura humana da interdependência mútua, do componente incisivo da atuação, modificação e ingerência, próprio de qualquer ecossistema coletivo dotado de saliências idiossincráticas. O indivíduo, instrumentalizado pelos instintos e pelas convenções, compõe uma cadeia sistemática, notadamente arbitrária e cíclica, condicionante a certo desvio epistemológico onde a soma do conhecimento histórico não resulta, necessariamente, numa totalidade. O meio social é o conjunto de ações de suas partes mais o próprio processo do qual resulta tal conjunto, de maneira que as interações sejam cumulativas, mas não no sentido de “empilhamento” e sim na concepção da costura rizomática das múltiplas relações sociais. A experiência humana não prescinde a natureza do ser. O “ser” é a resultante de identidades específicas, únicas, intransferíveis em confronto com o “outro”. O denominador social desse confronto é a experiência. E a experiência, tanto a individual como a coletiva, é antitética por excelência. É por esses fatores próprios do humano que você odeia aquele vizinho que, displicentemente, emite sons e ruídos fractais altissonantes. Isto é, aquele filho da puta barulhento do caralho, conforme a nomenclatura de palavras torpes normalmente aceitável na sociedade moderna.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Impermeável
O cidadão líquido gosta de água. Mineral, potável, de coco, que-passarinho-não-bebe, gelada, do rio, do mar, da piscina, dos olhos. Odeia porém, um tipo de água: a água que voa, a água vertical, a água que deságua, a água-chuva-que-Deus-dá. Odeia tanto que faz tanques, barreiras e misturas químicas que impedem o mergulho da água no solo-esponja da cidade. Muitos habitantes molhados lacraram o chão onde pisam como cofres de zinco. Jogaram as chaves no mar e já esqueceram a combinação para abrir. A água que cai do céu não é bem recebida em sua própria terra. Ela faz vingança aguada à falta de zelo do homem impermeável: invade casas pelas portas, janelas e outros buracos.
Há água sobre o asfalto e não é miragem. Há poças nas calçadas recém assentadas, há pingos aglomerados esperando ônibus nos terminais, há águas reticentes no centro alagado e nos cantos mofados da cidade. A praça com espelho d´água virou chão cinza-cimento. Jardins e gramados viraram pisos decorados com desenhos de flores que não fazem fotossíntese nem bebem água. Chuvisco, garoa ou chuvarada estão impedidas de entrar nas artérias da terra: hemorragiam-se todos os dias, chova ou faça sol. As águas das chuvas e dos rios reclamam seus ciclos, caminhos, bueiros e saídas. Querem correr as correntezas e quedas que lhes são próprias. Obstruída, água parada é morte, sujeira e medo. O limo no muro, nas trincas dos paralelepípedos e nas rachaduras da parede são avisos da resistência aquática. A água derramada quer apenas ser água, deixar-se levar pelos poros do chão, entrar no casulo da terra e metamorfosear-se em novas nuvens, novas chuvas e novos rios em verões do por vir.
Calhas, encanamentos, tubulações, conexões, drenagens, sulcos e escoadouros são palcos perfeitos para os movimentos dançantes das águas e o respirar altivo da terra. As águas precisam ser livres para que todos possam andar pelas ruas sem precisar vestir aquele desconfortável escafandro.
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
Confecções
Sinos de Belém em abalos e badalos
Na catedral dAquele que tudo vê
Transfigurado em preces & soluços
Mordiscava o ar com palavras insalubres
Malabarismos de corpo
Saliva em nó
Petições plagiadas de profetas
Portas fecharam-se, desonradas
Janelas em estalos: cegavam-se
Tijolos transpiravam poeira & pólvora
Há ruína quando chora-se.
Dentro.
Tal qual tanques suando bombas.
Fora.
E toda ruína traz no bolso um lenço branco.
Nunca se sabe.
Nunca se calculou o ângulo de um corpo ajoelhado.
[jb]
terça-feira, janeiro 13, 2009
Hebdomática
Se o olho d´água chora não vemos as lágrimas.
Terra
Apenas cegos cultivam abrolhos.
Ar
Morrer é de perder o fôlego!
Fogo
Viver é incendiar-se. Mas não nascemos fênix todos os dias.
Gelo
Nenhuma água congelada ficará impune no tribunal das rochas.
Vento
Ele assovia para ela. A tempestade chove apaixonada.
Sal
Por recomendação médica, os canibais aderiram à comida insossa.
[jb]
domingo, janeiro 04, 2009
Prêmio Dardos

Conforme texto que circula junto com o selo, "com o Prêmio Dardos se reconhece os valores que cada blogueiro mostra cada dia em seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras". A idéia é promover o intercâmbio entre blogueiros através do reconhecimento de suas contribuições à blogosfera e à Web.
De acordo com o script, quem recebe o prêmio deve seguir estas orientações:
a) exibir o selo do prêmio;
b) criar vínculo para o blog do qual recebeu o prêmio;
c) escolher outros 15 blogs a serem premiados.
Vou quebrar o protocolo e citar só alguns. Os links ao lado já definem por si só a minha lista premiada de leituras e visitas frequentes.
* Legendas & Etcaetera, do além-mar CSA.
* Notas Mínimas, da Katherine Funke.
* A Garota Distraída: Vanessa Bencz.
* Caixa de Hai Kai, do Seabra.
* SpaceMelato, do "manezinho" Fabiano Melato.
* No Mundo da Lua News, o blog do Divino.
[jb]
sábado, janeiro 03, 2009
Encontro Silábico
Na fala, a voz aguda perguntava as horas
Tinha um cheiro tônico (dos que vivem perto das florestas)
E seu ouvido oxítono captava até meu sussurro
Minhas palavras foram sem ênfase
As dela bastante acentuadas
Despedi-me com um hiato
Ela, com um toque diferencial:
a mão direita reticente sobre o meu ombro analfabeto
Fiquei com o rosto craseado
enquanto meu olhar hifenizava o gesto de separação
Entrei no coletivo
Ela, singular, permaneceu no ponto
Tomei assento
Ri o riso minúsculo das vogais fechadas
Senti-me quase-verbo
Ela tinha a pele ortográfica
As pernas intransitivas
Os cabelos conjugados com os olhos
Eu, sujeito de entrelinhas
Ela, pronome reto
parágrafo único
minha oração nos domingos sem palavras
[jb]